Avançar para o conteúdo principal

Luz das letras e os provérbios populares

Aproveitei o dia que o Pais arde sem cessar para escrever a narrativa da "Luz das letras",  até 300 palavras (316) utilizando um ou mais provérbios populares (8).
Deus ajuda quem cedo madruga e aquele escritor que não é gato escondido com rabo de fora.

Enquanto conduzo de regresso a casa, avisto ao longe perto do horizonte, um sol alaranjado encoberto por uma grande sombra cinzenta. Ao contrário do que dizem, "longe da vista, longe do coração", esta visão enche-me de tristeza. Sinto-me como um cão que ladra, mas não morde, revoltada com as atrocidades humanas.

Agosto passa e tudo parece em ordem: os bombeiros em alerta, as bermas limpas, as vistorias dos terrenos. Mas chega Setembro e com ele o vento, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e a negligência toma conta.

Parece tudo um grande negócio, lucra-se com a madeira queimada e as florestas em cinzas são aproveitadas para plantar sobreiros ou instalar painéis solares. E o resultado? Nada cresce e o desmatamento transforma-se em especulação imobiliária. Em toda à volta crescem casas e depois reclamam do calor e da falta dos espaços verdes, no local aonde um dia já fez parte da natureza.

O velho ditado "cada cabeça, a sua sentença" nunca fez tanto sentido. Há muitas palavras, promessas e planos, mas pouco se concretiza. Os políticos aparecem, o governo se pronuncia, mas a mudança real parece sempre distante.

Quem provoca incêndios pode não ser o único culpado, mas devia sentir na pele o que é estar na linha da frente, combatendo o fogo, “quem brinca com o fogo queima-se”, que sentissem o calor, as queimaduras e o desespero.

O clima está instável. “Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera“, mas parece que a natureza está a morrer aos poucos. Não há árvores suficientes para conter o calor crescente que avança do deserto.

Dizem que "o sol quando nasce é para todos", mas com tanto fumo e cinzas no ar, talvez não seja para alguns. Imaginar que as cinzas representem os animais, as árvores e até as pessoas é doloroso.

Enquanto há vida, há esperança, mas por quanto tempo mais?

Comentários

Anónimo disse…
👌

Mensagens populares deste blogue

O Inverno Que Regressou

  O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...