Avançar para o conteúdo principal

Dores! Saudades!

Sinto-me nostálgica. Sinto a tua falta, Pai.

Tu eras o chefe da família, e nunca te engrandeceste por isso. Não davas nem de mais, nem de menos, apenas exigias que cumpríssemos as regras básicas. Conversavas com todos, fossem ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, de qualquer clube ou religião. Ainda hoje falam de ti, pela grandiosidade que carregavas como homem.

Desde que partiste, já não temos um chefe. O que temos é um "galo" com mania de líder ou uma dona de casa que manda em todos, em qualquer lugar que esteja. Às vezes, sinto vontade de me afastar. Eu não sou assim, e não quero guerrear por coisas sem sentido.

Critico quem julga os outros pelo olhar ou pela vida que levam, sem saberem pelo que já passaram. Há cicatrizes visíveis e outras escondidas. E ainda há as emocionais, as que mais nos marcam. Somos todos humanos, diferentes, com opiniões e experiências únicas. E por sermos diferentes, seremos postos de lado?

Sempre quis uma família mais presente, mas tenho uma família de ermitas. Não se dão com ninguém, carregam uma falsa superioridade e orgulho. Será isso saudável? Ou é vergonha que esconde a falta de caráter?

Cheguei aos 50 anos com muitas vivências. Momentos felizes, sofrimentos, e dores que ainda carrego. Aprendi que as mudanças fazem parte da vida, especialmente quando são para melhor. Mas também sei que ainda há muito para aprender.

Carrego mágoas do passado, uma solidão que me massacra e os ciclos que precisam de se fechar. Até quando essas energias não resolvidas vão-me consumir?

Entrei numa nova fase, não deixar nada por dizer, seja falado ou escrito. Sei que vai doer e em mim doerá o triplo. Mas acredito que só assim alcançarei a tranquilidade de coração e alma que tanto procuro.

Sinto que olhas por nós. Quando ouço um instrumental, um dueto ou uma orquestra, sinto-te perto. E por um momento, tudo fica mais pacífico.

A minha estrela cintilante.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Inverno Que Regressou

  O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...