Há coisas que não escolhemos. Há coisas que são assim. São assim porque são. Podemos escolher o nome que damos às flores e às estrelas, mas o perfume de umas e o brilho de outras seriam os mesmos fora dos nomes que lhes damos, porque a natureza das coisas é serem o que são sem serem outra coisa. O nome que damos às coisas é uma escolha que elas não fizeram e que só lhes serve na medida em que dele não precisam. O nome que damos ao rio não o faria correr nem mais depressa nem mais devagar do que corre e se lhe chamássemos chão ele nunca se deixaria caminhar.
Helena estava doente há quase um ano quando o médico lhe disse que existia uma cura. Não fez perguntas. Agarrou-lhe as mãos por cima da secretária e chorou em silêncio. O tratamento começou nessa mesma semana. As dores desapareceram primeiro. Depois vieram as noites tranquilas, o apetite, a cor no rosto. Ao fim de um mês, Helena já conseguia subir as escadas sem parar a meio. — Está a resultar — disse o médico. Ela sorriu. Nessa noite, dormiu profundamente pela primeira vez em muitos meses. Acordou pouco depois das três da manhã. Alguém estava sentado aos pés da cama. Ficou imóvel. A figura não se mexia. Helena acendeu o candeeiro. Não havia ninguém. Na manhã seguinte encontrou uma mancha escura sobre o lençol, exatamente onde julgara ver a silhueta. Convenceu-se de que tinha sonhado. Até começar a ouvir a voz. Primeiro no corredor. Depois na cozinha. Depois atrás da porta do quarto. Sempre durante a madrugada. Sempre a chamar por ela. — Helena... Quando perguntou ao...

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