No ventre de uma mãe havia dois bebés. Um perguntou ao outro:
"Acreditas na vida após o parto?" O outro respondeu: "É claro. Tem de haver algo após o parto.Talvez nós estejamos aqui para nos prepararmos para o que virá mais tarde." "Disparate", disse o primeiro. "Que tipo de vida seria essa?" O segundo disse: "Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez nós possamos andar com as nossas próprias pernas e comer com as nossas bocas. Talvez tenhamos outros sentidos que não podemos entender agora." O primeiro disse: "Isso é um absurdo. O cordão umbilical fornece-nos nutrição e tudo o mais de que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto está fora de cogitação." O segundo insistiu: "Bem, eu acho que há alguma coisa e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez nós não iremos mais precisar deste tubo físico." O primeiro contestou: "Disparate, e além disso, se há realmente vida após o parto, então, por que é que ninguém jamais voltou de lá?" "Bem, eu não sei", disse o segundo, "mas certamente vamos encontrar a Mãe e ela vai cuidar de nós." O primeiro respondeu: "Mãe!, acreditas realmente na Mãe? Isso é ridículo. Se a Mãe existe, então, onde ela está agora?" O segundo disse: "Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela este mundo não seria e não poderia existir." Disse o primeiro:" Bem, eu não posso vê-la, então, é lógico que ela não existe." Ao que o segundo respondeu: "Às vezes, quando estamos em silêncio, se nos concentrarmos e realmente ouvirmos, poderás perceber a presença dela e ouvir a sua voz amorosa" Este foi o modo pelo qual um escritor húngaro explicou a existência de Deus. |
O relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...
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