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Noitada de Sto António

Não faltam a sardinha assada, o pão com chouriço e muita animação, com os bailaricos a entrar pela noite dentro.
O manjerico, com os seus dizeres proverbianos e promessas de amor infindáveis, cativa o público nas freguesias mais bairristas de Lisboa:
Ajuda, Alcântara, Beato, Campo Grande, Campolide, Carnide, Castelo, Marvila, Nossa Senhora de Fátima, Prazeres, Pena, Sta Maria de Belém, Sta Maria dos Olivais, Santos-o-Velho, S. Mamede, S. Miguel, S. Paulo e S. Vicente de Fora.

Os bairros históricos de Lisboa encheram-se com gente ávida de sardinhas assadas e vinho tinto. As artérias que se previam mais frequentadas foram cortadas ao trânsito muito cedo, o que fez com que a maioria das pessoas circulasse a pé pelos bairros históricos.

Cerca das 20h00, já era praticamente impossível encontrar em Alfama uma mesa ou um banco disponível para comer a sardinha assada, cujo preço esteve quase sempre no euro e meio. A partir dessa hora, o exercício mais vulgar de turistas e visitantes era o de subir e descer vielas e becos, observando a felicidade dos que, avisados, haviam chegado mais cedo.

Como alternativa a Alfama, muitas pessoas acorreram ao cada vez mais popular Santo António da Bica e à Madragoa. A febre das sardinhadas estendeu-se também por toda a zona que vai de Alfama ao Terreiro do Paço.

A Rua das Portas de Santo Antão, essa, beneficiou da proximidade da Avenida da Liberdade, que se encheu de tal forma que muitas pessoas não puderam ver as marchas em grandes condições. As bancadas metálicas estavam repletas de apoiantes dos marchantes e o gradeamento não foi suficiente para toda a gente que quis observar o desfile. "Ie, ie, ie, Mouraria é que é!", gritavam jovens apoiantes da Mouraria, empoleirados numa plataforma metálica precária junto ao Teatro Tivoli.

Junto ao Marquês de Pombal, pela Rua de Brancaamp, estendiam-se os elementos das marchas que ainda não haviam desfilado, muitos deles com o nervosismo estampado no rosto. Outros aproveitavam para cumprimentar os familiares e amigos. "Ritinha, oh Ritinha, olha a fotografia, filha", gritava uma mulher do lado de fora da grade para uma marchante.

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