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Sinto falta...

Perco-me nela. No suave roçar de lábios que se passeia pelo rosto. O toque nas pálpebras, levando ao semicerrar de olhos, a humidade que se espalha pela face, num carreiro doce que se encaminha para o toque apaixonado.
Depois, o toque de lábios com lábios. O aperto do lábio inferior. A pele macia, a carne tenra que se prende entre os lábios, entre os dentes. O toque no canto dos lábios com a ponta da língua. O leve roçar quente, como quem pede: ‘deixa-me entrar’. A penetração no espaço quente e húmido onde outra língua a aguarda para se entrelaçar num abraço movimentado, feito de fogo e paixão.
Bocas que tremem.
O gemido surdo que sai do peito. A alucinação do beijo.
O meu beijo. O teu. O nosso.
A minha boca. A tua. As nossas.

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 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...