A chuva chicoteava as janelas da velha casa paroquial. Helena abriu o livro de exorcismos enquanto Sérgio observava a mulher amarrada à cama. Não havia compaixão no seu olhar, apenas a curiosidade metódica de quem examina um espécime raro. — Vade retro, Satana — começou Helena. — Essa passagem vem depois — corrigiu Sérgio, sem desviar os olhos da vítima. — A ordem importa. Sobretudo quando alguém está a mentir. A mulher estremeceu. Não perante o crucifixo, mas quando Sérgio se aproximou. — Afasta-o de mim! — gritou. Ele sorriu. — Interessante. De que tens medo, exatamente? A mulher começou a rir. A voz que saiu da sua garganta era grave, quase humana. — Chamas-lhe demónio porque é mais fácil do que lhe chamar memória. Helena interrompeu a oração. — Que memória? Sérgio pousou dois dedos sobre o pulso da mulher, como um médico a avaliar um doente. — A culpa é uma doença curiosa. Alguns pacientes preferem inventar monstros a reconhecer o que fizeram. A mulher deb...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...