Helena começou a ouvir ruídos no andar de cima na terceira noite após o funeral. Passos lentos, seguidos de móveis a arrastar, sempre às três e dezassete da madrugada.
Na primeira noite, culpou o vento. Na segunda, subiu as escadas. Na terceira, ouviu uma voz chamá-la do antigo quarto da mãe.
— Helena...
A cama estava feita, as cortinas imóveis e o relógio parado às três e dezassete. Sobre a cómoda, uma fotografia de família encontrava-se virada para a parede.
Helena voltou-a.
Na imagem, estavam os pais, Sérgio e ela própria, ainda crianças. Ao fundo, junto à porta, um homem pálido, vestido de escuro, olhava diretamente para a câmara.
Na manhã seguinte, mostrou a fotografia a Sérgio.
Ele empalideceu.
— Era o meu pai.
Helena sabia que ele morrera muito antes de se conhecerem.
Nessa noite, os passos regressaram. No corredor, encontraram marcas húmidas de pés descalços que terminavam diante do quarto da mãe.
— Não devias ter trazido a fotografia para aqui — murmurou Sérgio.
— Porquê?
— Ele nunca gostou de ficar sozinho.
A porta abriu-se lentamente. O quarto estava vazio, mas duas marcas fundas vincavam o colchão.
Sobre a almofada, Helena encontrou outra fotografia. A mãe, muito jovem, sorria ao lado do homem. Atrás deles, quase escondidas pela sombra, estavam duas crianças: um rapaz e uma menina.
Helena reconheceu-se. Reconheceu também Sérgio.
Sentiu um aperto no peito. A fotografia tinha sido tirada décadas antes de ambos nascerem.
Virou-a. Não havia data nem dedicatória, apenas uma mancha escura com a forma de uma impressão digital.
Um estalido ecoou no corredor.
Helena voltou-se. Sérgio desaparecera. As marcas húmidas também. O corredor estava vazio.
Durante alguns segundos, ouviu apenas o vento a bater nas janelas.
Depois, voltou a olhar para a fotografia.
Já não havia duas crianças.
Havia três.
Da escuridão veio uma voz tranquila, tão familiar que Helena não conseguiu perceber a quem pertencia.
— Agora já estamos todos em casa.
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