Todas as noites, antes de adormecer, Helena repetia a oração que a avó lhe ensinara em criança. Fazia o sinal da cruz, apertava o terço entre os dedos e murmurava as palavras que sabia de cor. A velha nunca lhe explicara o significado, mas deixara-lhe um aviso que repetia sempre no final.
— Reza antes da meia-noite. Depois da última badalada, não pronuncies uma única palavra da oração.
Durante anos, Helena cumprira a promessa.
Até à noite em que Sérgio não regressou a casa.
Esperou junto à janela, vendo a chuva escorrer pelos vidros e consultando o relógio de poucos em poucos minutos. Quando faltavam apenas segundos para a meia-noite, abriu a gaveta da sala e retirou o terço da avó.
Queria terminar a oração antes das doze.
Não conseguiu.
O relógio começou a bater quando ainda lhe faltavam as últimas palavras.
— Senhor, guarda os que partiram, acolhe os que sofrem e não deixes que os esquecidos se percam no escuro. Que encontrem o caminho de volta, mas não se esqueçam de quem os chamou. Ámen.
A última palavra saiu-lhe dos lábios depois da décima segunda badalada.
O apartamento mergulhou num silêncio absoluto. Nem a chuva parecia fazer ruído. Então ouviu a oração. Não à sua frente. Nem atrás. Parecia vir de muito longe. Como uma recordação repetida por alguém que a conhecesse há décadas.
Helena ficou imóvel.
A voz completou a última frase. Depois calou-se. Lembrou-se da avó sentada diante de uma vela, numa noite da infância.
— Com quem estás a falar?
A velha demorara tanto tempo a responder que a pergunta lhe ficara gravada na memória.
— Com aqueles que não querem ser esquecidos.
Um arrepio percorreu-lhe o corpo.
Na estante, a fotografia da avó parecia diferente. Não sabia explicar porquê. Pegou nela. Atrás da moldura encontrou um pequeno papel dobrado. Reconheceu a letra.
"Se terminares a oração depois da meia-noite, alguém encontrará o caminho de volta."
Helena procurou a linha seguinte. Durante alguns segundos não a encontrou. Tinha a certeza de que havia mais qualquer coisa escrita. A tinta parecia ter sido apagada. Ou esquecida.
Franziu a testa. Tentou lembrar-se do rosto da avó. Conhecia-lhe a voz. Conhecia-lhe as mãos. Conhecia o cheiro das roupas guardadas no armário. Mas o rosto começava a escapar-lhe.
Como um sonho depois de acordar. Três pancadas ecoaram na porta. Helena estremeceu.
— Helena, abre. Estou em casa.
Era a voz de Sérgio. Reconheceu-a imediatamente. Aproximou-se da entrada. A mão pairou sobre a maçaneta. Então ocorreu-lhe uma coisa. Já não conseguia recordar os olhos dele.
Do outro lado da porta, Sérgio chamou-a novamente. E, pela primeira vez, Helena não soube dizer quem dos dois estava a ser esquecido.
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