Na aldeia, ninguém falava do ritual depois do pôr do sol. Chamavam-lhe apenas a Coroação.
Helena e Sérgio perseguiam lendas juntos desde pequenos. Numa noite de outubro, decidiram visitar o castelo abandonado onde, segundo os antigos, dois vivos eram chamados de cem em cem anos.
Encontraram as portas abertas, tochas acesas e um trono negro. Sobre ele repousava uma coroa de ouro envelhecido. As portas fecharam-se atrás deles.
Uma figura encapuzada surgiu da escuridão. Ergueu um braço na direção de Helena. As chamas inclinaram-se, obedientes. Depois, apontou para Sérgio.
— O reino recorda-se.
A coroa ergueu-se e pousou sobre a cabeça de Helena.
Por um instante, ela viu centenas de rostos: crianças afogadas, soldados esquecidos, mulheres enterradas sem nome. Todos a observavam em silêncio, aguardando uma decisão que ela não compreendia.
Sérgio caiu de joelhos, sufocado por mãos invisíveis.
— Não! — gritou Helena.
A figura aproximou-se.
— Escolhe.
— Não escolho ninguém!
O castelo estremeceu. As tochas apagaram-se e, no escuro, alguém sussurrou o nome de Sérgio.
Conseguiram fugir.
Três semanas depois, Helena acordou com treze badaladas. À janela, uma figura sem rosto apontava para Sérgio. Na testa dele, uma marca dourada começava a desenhar-se.
Podes recusar a coroa, mas nunca escapar ao reino.
Na manhã seguinte, a casa estava vazia.
Sobre a mesa, entre duas chávenas ainda mornas, encontrava-se uma coroa negra, húmida, do tamanho exacto da marca que rasgara a testa de Sérgio.
No interior do metal, uma palavra fora gravada:
Herdeiro.
Desde então, nas noites de outubro, dois vultos caminham até ao castelo.
Um usa uma coroa invisível.
O outro traz a cabeça inclinada, como quem escuta uma ordem distante.
E, quando os sinos tocam treze vezes, as janelas da aldeia fecham-se sozinhas.
Porque a Coroação nunca termina.
Apenas muda de soberanos.
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