Helena tinha dez anos quando prometeu à mãe que nunca abriria a porta do quarto ao fundo do corredor.
— Mesmo que ouças alguém chamar por ti — dissera-lhe, ajoelhada diante dela. — Mesmo que reconheças a voz.
A mãe morreu nessa mesma semana.
Durante anos, Helena evitou aquele quarto. A porta permanecia fechada, sem fechadura visível, e Sérgio nunca perguntara o que existia do outro lado. Até à noite em que começaram as pancadas.
Três golpes secos. Sempre à mesma hora: duas e treze da madrugada.
Na quarta noite, Helena acordou com uma voz que não ouvia desde a infância.
— Minha filha.
Sentou-se na cama, gelada. Sérgio continuava a dormir ao seu lado.
— Helena, abre-me a porta.
A voz vinha do fundo do corredor. Era a voz da mãe, com a mesma doçura cansada, a mesma maneira de prolongar a última sílaba do seu nome.
Levantou-se e caminhou até à porta proibida. Sob a madeira, uma linha de luz tremia no soalho.
— Prometeste — murmurou, tentando convencer-se de que ainda estava a sonhar.
Do outro lado, a mãe soltou uma pequena gargalhada.
— Eu sei. Foste uma boa menina.
Helena pousou a mão na madeira. Estava morna.
— Tenho tantas saudades tuas — sussurrou.
A voz calou-se por instantes.
— Então abre.
Helena recuou. Lembrou-se da última noite da mãe, do beijo na testa e dos dedos que lhe apertaram a mão com força inesperada.
Promete-me que não abres.
Voltou para o quarto e acordou Sérgio. Quando regressaram ao corredor, a porta estava imóvel. A luz desaparecera.
Na manhã seguinte, encontraram marcas de dedos na madeira, do lado de fora.
E, ao lado delas, escritas numa caligrafia infantil, quatro palavras:
A promessa era minha.
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