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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Exorcismo

A chuva chicoteava as janelas da velha casa paroquial. Helena abriu o livro de exorcismos enquanto Sérgio observava a mulher amarrada à cama. Não havia compaixão no seu olhar, apenas a curiosidade metódica de quem examina um espécime raro.

— Vade retro, Satana — começou Helena.

— Essa passagem vem depois — corrigiu Sérgio, sem desviar os olhos da vítima. — A ordem importa. Sobretudo quando alguém está a mentir.

A mulher estremeceu. Não perante o crucifixo, mas quando Sérgio se aproximou.

— Afasta-o de mim! — gritou.

Ele sorriu.

— Interessante. De que tens medo, exatamente?

A mulher começou a rir. A voz que saiu da sua garganta era grave, quase humana.

— Chamas-lhe demónio porque é mais fácil do que lhe chamar memória.

Helena interrompeu a oração.

— Que memória?

Sérgio pousou dois dedos sobre o pulso da mulher, como um médico a avaliar um doente.

— A culpa é uma doença curiosa. Alguns pacientes preferem inventar monstros a reconhecer o que fizeram.

A mulher debateu-se.

— Ele enterrou-a junto ao rio! A rapariga que nunca encontraram!

Helena sentiu o sangue gelar. Conhecia o caso. Durante três anos, a fotografia da rapariga desaparecida surgira nos noticiários, nos cartazes desbotados das ruas e nas velas acesas à porta da igreja. Sérgio ajudara a polícia na investigação, prestara testemunho e organizara uma vigília.

— Sérgio? — Ele ajeitou o colarinho.

— Não acredites em tudo o que ouves durante um exorcismo.

A mulher arqueou o corpo numa última convulsão e ficou imóvel. Depois, os olhos fixaram Helena.

— Pergunta-lhe porque sabe a oração de cor. Pergunta-lhe quantas vezes a disse antes de matar.

Sérgio fechou o livro com delicadeza.

— Todos precisamos de monstros, Helena. Caso contrário, teríamos de admitir quem realmente somos.

Pousou a faca sobre a mesa.

— Não vou matar-te. Preciso de alguém que confirme o milagre.

Quando a polícia chegou, encontrou um exorcista respeitado, uma vítima morta e uma testemunha em choque.

Na semana seguinte, Sérgio celebrou uma missa em memória das vítimas.

Quando pronunciou as palavras «livrai-nos do mal», a congregação respondeu em uníssono. Apenas Helena permaneceu em silêncio. Porque, naquela igreja, era a única pessoa que sabia onde o mal estava sentado.

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