À meia-noite, Helena encontrou Sérgio na cave, ajoelhado diante de um círculo de velas negras. No centro, repousava um espelho antigo, coberto de manchas escuras que pareciam mover-se sob o vidro.
— O que estás a fazer? — perguntou ela.
Sérgio ergueu o rosto. Tinha os olhos vermelhos e as mãos cobertas de terra.
— A tentar corrigir o que fiz.
Há três meses, uma mentira sua destruíra uma família. Helena conhecia a verdade, mas nunca denunciara Sérgio. Amava-o demasiado para o entregar à justiça. Desde então, ambos viviam assombrados por aquilo que tinham permitido acontecer.
— Que ritual é este?
— Expiação. Encontrei-o num livro antigo. Diz que toda a culpa exige um preço.
O espelho estremeceu. Do outro lado do vidro, uma mulher bateu com os punhos, desesperada. Tinha a boca cosida por fios negros.
Helena aproximou-se. Primeiro, reconheceu os olhos. Depois, a cicatriz junto à sobrancelha. Só então percebeu quem estava presa do outro lado do vidro.
A mulher que, na última noite em que estivera viva, lhe pedira ajuda. Helena recuou. Ainda ouvia aquela voz, os pedidos desesperados, a promessa de que tudo ficaria bem. A sua própria voz.
Não te preocupes. Amanhã trato disso.
Mas não tratara.
— Não olhes! — gritou Sérgio. — Ainda não terminei!
As velas apagaram-se uma a uma. Uma voz rouca encheu a cave:
Uma mentira exige uma verdade. Uma traição exige uma perda. Uma alma exige outra alma.
— Eu aceito o preço — murmurou Sérgio.
O espelho partiu-se. De dentro dele saiu uma figura com o rosto de Sérgio, pálida e sorridente. Abraçou Helena com uma ternura impossível.
— Está tudo reparado, meu amor.
Ela tentou afastar-se, mas os dedos não lhe obedeceram. Uma linha negra fechou-lhe os lábios, ponto por ponto. Sérgio estendeu-lhe uma vela apagada.
— Segura-a.
Na manhã seguinte, a cave estava vazia. O espelho permanecia intacto. Sob o vidro, duas manchas escuras ajoelhavam-se lado a lado.
Todas as noites, à meia-noite, Helena tentava gritar.
Quando finalmente conseguiu pronunciar o nome dele, uma voz respondeu do fundo do vidro:
— Ainda não acabou.
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