O funeral estava marcado para as onze. Quando Helena chegou à capela, Sérgio esperava-a junto a um caixão fechado.
— Quem morreu?
— Não sei.
Seis cadeiras vazias, flores sem dedicatória e um padre imóvel completavam a estranha cerimónia. Sobre uma mesa, um livro de presenças continha sete nomes. O último era o de Helena.
— Vamos embora.
Sérgio tentou abrir a porta. Do outro lado, havia apenas uma parede de pedra atravessada por raízes.
— Falta o último adeus — anunciou o padre.
O caixão estalou. Sérgio pousou a mão na tampa. Três pancadas responderam.
Helena reconheceu o ritmo: era o sinal que usava em criança para chamar a mãe, morta havia vinte anos.
O padre começou a rezar. As velas diminuíram, sem perder a cera.
— Seja quem for, já morreu — disse Helena.
— Ainda não.
A tampa deslizou. Dentro, havia um vestido preto — o que Helena vestia — e uma fotografia dos dois, tirada naquela manhã. Atrás deles, o padre segurava uma pá.
No fundo do caixão, havia espaço para dois corpos.
O chão tornou-se macio. Como terra recentemente remexida, cedeu sob os pés de Helena. Raízes enrolaram-se-lhe nos dedos quando tentou agarrar-se à madeira.
Sérgio estendeu-lhe os braços. Helena agarrou-lhe a mão.
— Não me deixes aqui!
Ele puxou-a, mas os próprios pés começaram a afundar.
— Não podemos sair os dois — sussurrou uma voz dentro do caixão.
Era a voz de Helena.
Sérgio largou-lhe a mão. A terra cobriu-lhe os joelhos. Depois a cintura. Depois o peito.
Quando tentou gritar, entrou-lhe pela boca. A última vela apagou-se.
Na manhã seguinte, o coveiro encontrou a capela vazia. Sobre o altar, uma fotografia mostrava Sérgio ajoelhado diante de uma campa recente.
No verso, lia-se:
O funeral só termina quando todos os presentes descansam.
Debaixo da terra, uma mão bateu cinco vezes na madeira.
E outra mão, do lado de fora, respondeu.
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