Helena tinha sete anos quando a avó a levou pela primeira vez ao rio.
Era Inverno. A água corria escura entre as pedras e a névoa pairava rente à margem, escondendo a outra banda numa massa branca e imóvel.
— Nunca fiques aqui depois do pôr do sol — avisou a velha.
Helena perguntou porquê, mas a avó demorou tanto tempo a responder que a menina acabou por esquecer a pergunta.
Anos mais tarde, quando a avó morreu, Helena herdou a casa e as terras junto ao rio. Nunca mais pensou naquele aviso.
Até à noite em que viu alguém na outra margem.
Estava a fechar as portadas da sala quando reparou na figura. Era uma mulher, imóvel, com o rosto oculto pela névoa.
Na noite seguinte, regressou. E na outra também.
Sempre à mesma hora. Sempre em silêncio.
Quando comentou o assunto com Sérgio, ele aproximou-se da janela e espreitou a margem.
— Não está lá ninguém.
Helena não respondeu. A mulher continuava ali.
Na quarta noite, pegou numa lanterna e desceu até ao rio. O frio mordia-lhe as mãos e a humidade colava-se à roupa.
A figura aguardava do outro lado.
À medida que a névoa se afastava, Helena começou a distinguir o casaco, o cabelo e a postura da desconhecida. O coração acelerou-lhe.
A mulher parecia-se consigo.
Ergueu um braço e apontou para a água.
Helena dirigiu a lanterna para a corrente. Entre os reflexos trémulos, surgiu uma ponte de pedra, estreita e coberta de musgo. Não existia ali qualquer ponte. Conhecia aquelas margens desde criança.
Quando voltou a olhar, a mulher já caminhava sobre as pedras, avançando em direcção à sua margem.
Helena reconheceu o rosto.
Era o seu, envelhecido por uma tristeza que não conseguia compreender.
A mulher parou a meio da ponte e estendeu-lhe a mão.
Então Helena lembrou-se da voz da avó e do aviso que nunca chegara a explicar.

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