Helena encontrou a fotografia entre os escombros de uma casa reduzida a pedra, cinza e madeira queimada.
Mostrava uma família sentada à mesa. Pai, mãe e duas crianças. Sorriam para a câmara como se o mundo ainda fosse um lugar seguro.
No verso havia apenas uma data antiga e uma palavra escrita a lápis: Ucrânia.
Guardou-a no bolso do casaco e continuou a caminhar pela rua devastada. O ar tinha o cheiro acre do fumo, misturado com o odor húmido da terra revolvida pelas explosões. Ao longe, ouviam-se os ecos surdos da artilharia.
Sérgio aguardava junto à entrada de um abrigo subterrâneo.
— Temos de sair daqui. Não falta muito para voltarem a bombardear.
Helena mostrou-lhe a fotografia.
— Achas que sobreviveram?
Ele observou os rostos durante alguns instantes.
— Nesta guerra? Duvido.
Desceram para o abrigo.
Lá dentro, dezenas de pessoas permaneciam encostadas às paredes. Algumas choravam em silêncio. Outras limitavam-se a olhar para o vazio, como se já não esperassem nada. Uma menina aproximou-se. Os seus olhos fixaram-se imediatamente na fotografia.
— Onde a encontrou?
— Numa casa ao fundo da rua.
A criança passou os dedos pela imagem.
— É a minha família.
Helena sentiu um aperto no peito.
— E os teus pais?
A menina apontou para o extremo mais escuro do abrigo.
— A minha mãe está à espera.
Helena seguiu o gesto.
Uma mulher permanecia sentada contra a parede. Reconheceu-a imediatamente. Era a mesma da fotografia. Tinha a cabeça inclinada e as mãos pousadas nos joelhos. Parecia imóvel demais. Como uma figura esquecida pelo tempo. Nenhuma das outras pessoas parecia reparar nela.
Um estrondo abalou o abrigo. Poeira caiu do teto. As luzes apagaram-se. Durante alguns segundos, o espaço mergulhou numa escuridão total.
Sérgio acendeu a lanterna. O feixe de luz atravessou o abrigo. A mulher desaparecera.
— Helena...
A voz dele tremeu.
A menina também já não estava. Um silêncio pesado instalou-se entre os sobreviventes. Só então Helena reparou na fotografia caída aos seus pés. Apanhou-a.
As mãos começaram a tremer. Agora havia apenas três pessoas sentadas à mesa. A cadeira da menina estava vazia. E, atrás delas, de pé junto à janela, encontrava-se uma nova figura. Uma mulher de casaco escuro. O seu rosto estava voltado para a câmara. Era Helena.
No verso da fotografia apareceu lentamente uma nova inscrição, traçada por uma caligrafia infantil.
Ainda não.
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