À meia-noite, Helena encontrou Sérgio sentado diante de uma mesa de madeira. Sobre ela, havia uma taça de água, três velas brancas e um livro encadernado em pele, sem título na capa.
— O que estás a fazer? — perguntou.
Sérgio passou o dedo por uma página amarelada, coberta de nomes escritos a tinta vermelha. Alguns estavam riscados. Outros pareciam ter sido escritos naquela noite.
— Um ritual de Nomeação — murmurou. — Aquilo a que damos um nome deixa de poder esconder-se.
Helena reconheceu o livro. Na semana anterior, encontrara-o aberto no quarto. Quando perguntara a Sérgio de quem era, ele jurara nunca o ter visto.
— Que nome procuras?
Ele demorou a responder.
— O verdadeiro nome daquilo que nos persegue.
Desde a morte daquela mulher, três meses antes, ouviam passos no corredor durante a noite. Por vezes, uma voz chamava Helena do interior dos armários. Outras vezes, Sérgio acordava com marcas de dedos no pescoço.
Ele começou a ler os nomes em voz alta. A cada nome, uma vela tremia. Ao décimo terceiro, a água escureceu. Ao vigésimo primeiro, Helena ouviu a própria voz sair do livro. Dizia palavras que ela nunca pronunciara.
— Pára.
Sérgio continuou, com os olhos fixos na página.
Então, as letras começaram a desaparecer. Nome após nome, a tinta dissolveu-se no papel, até restar apenas uma página em branco. Devagar, surgiram nela duas palavras.
Helena aproximou-se.
Primeiro, pensou reconhecer a caligrafia de Sérgio. Depois reparou que as letras se desenhavam de dentro para fora, como se alguma coisa as empurrasse através do papel.
Era o seu nome.
— Porque está ali o meu nome?
Sérgio afastou-se da mesa.
— Não fui eu.
Uma respiração fria tocou a nuca de Helena.
— Finalmente.
As velas apagaram-se.
No escuro, Sérgio gritou o nome dela. Uma vez. Duas. Três.
A cada repetição, a voz de Helena parecia mais distante.
Depois, silêncio.
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