Helena começou a ouvir ruídos no andar de cima na terceira noite após o funeral. Passos lentos, seguidos de móveis a arrastar, sempre às três e dezassete da madrugada. Na primeira noite, culpou o vento. Na segunda, subiu as escadas. Na terceira, ouviu uma voz chamá-la do antigo quarto da mãe. — Helena... A cama estava feita, as cortinas imóveis e o relógio parado às três e dezassete. Sobre a cómoda, uma fotografia de família encontrava-se virada para a parede. Helena voltou-a. Na imagem, estavam os pais, Sérgio e ela própria, ainda crianças. Ao fundo, junto à porta, um homem pálido, vestido de escuro, olhava diretamente para a câmara. Na manhã seguinte, mostrou a fotografia a Sérgio. Ele empalideceu. — Era o meu pai. Helena sabia que ele morrera muito antes de se conhecerem. Nessa noite, os passos regressaram. No corredor, encontraram marcas húmidas de pés descalços que terminavam diante do quarto da mãe. — Não devias ter trazido a fotografia para aqui — murmuro...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...