Helena fez dezoito anos numa manhã de chuva. Ao soprar as velas, ouviu uma voz atrás de si.
— Finalmente.
Virou-se. Não havia ninguém.
Nessa noite, sonhou com uma porta estreita ao fundo de um corredor. Do outro lado, alguém chamava por ela. Acordou com a certeza de que a voz viera do quarto.
Na manhã seguinte, encontrou uma chave de ferro debaixo da almofada. Era antiga, morna, e trazia o seu nome numa caligrafia familiar. Quando a mostrou à mãe, esta empalideceu.
— Deita-a fora, Helena.
Mas a mãe não explicou porquê.
Nos dias seguintes, Helena experimentou a chave em todas as fechaduras. Nenhuma abriu. Até que, ao afastar um armário no fundo do corredor, descobriu uma porta estreita que nunca tinha visto. A chave rodou sem resistência.
O quarto não tinha janelas. As paredes estavam cobertas de fotografias de mulheres da família — adolescentes, idosas, todas com os mesmos olhos de Helena. No centro, uma cadeira virada para um espelho. Sobre ela, um vestido branco do seu tamanho.
Na última fotografia, Helena aparecia com o vestido. A data era a do dia seguinte. Ouviu passos. A mãe surgiu à porta, pálida.
— Quando fiz dezoito anos, também encontrei a chave — murmurou. — A minha mãe disse-me para não responder.
Um estalido soou dentro do espelho. Atrás do reflexo de Helena, uma mulher de vestido branco pousou-lhe as mãos nos ombros. Era a avó.
— Já tens idade, minha filha.
A mãe apertou-lhe o pulso.
— Não olhes. E não respondas.
Helena abriu a boca.
— Estou pronta.
A mãe fechou os olhos.
O reflexo de Helena levantou a mão e pousou-a no vidro. A superfície cedeu como pele fria.
E a voz de Helena, vinda do espelho, sussurrou:
— Agora é a tua vez.
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