A igreja estava vazia quando Helena entrou. Lá fora, a chuva escorria pelos degraus de pedra e o vento fazia estremecer as portas. No interior, cheirava a cera derretida e a humidade antiga.
Sentou-se no último banco, de olhos fixos no confessionário. Havia coisas que guardava há tanto tempo que já não sabia distingui-las das próprias memórias.
O padre apareceu pouco depois, com uma pequena lanterna na mão.
— Pode entrar — disse, abrindo a portinhola.
Helena ajoelhou-se no escuro. Ouviu o ranger da madeira e uma respiração lenta.
— Perdoe-me, padre, porque pequei.
— Há quanto tempo não se confessa?
— Desde que a minha mãe morreu.
Seguiu-se um silêncio prolongado.
— E o que a traz aqui hoje?
Helena apertou as mãos.
— Na noite em que ela morreu, discutimos. Disse-lhe coisas horríveis. Caiu nas escadas e ouvi-a chamar por mim, mas fiquei no quarto. Não fui ajudá-la.
— E depois?
— De manhã, encontrei-a no fundo das escadas. Já estava morta.
A madeira do confessionário estalou, num som seco que a fez estremecer.
— Tem a certeza?
Helena franziu a testa.
— Do quê?
A respiração do outro lado tornou-se mais pesada.
— De que ela já estava morta quando a encontrou?
Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Nunca contara a ninguém o que ouvira antes do funeral, nem sequer a Sérgio. Durante três noites seguidas, acordara com pancadas vindas do caixão. Três pancadas. Sempre três.
— Quem é o senhor? — perguntou.
Ouviu a madeira ranger, como se alguém se levantasse.
— Padre?
Nenhuma resposta. Então, uma voz sussurrou do outro lado da divisória:
— Minha filha.
Helena reconheceu-a de imediato. Levantou-se num impulso e abriu a portinhola. O lugar do padre estava vazio. A cadeira ainda balançava ligeiramente. Nesse instante, ouviu passos na nave da igreja. Arrastados, húmidos, sobre a pedra.
— Mãe?
— Esperei por ti.
Uma silhueta surgiu ao fundo.
— Durante muito tempo.
As velas vacilaram.
— Agora quero ouvir a tua confissão inteira.
As chamas apagaram-se todas ao mesmo tempo. E os passos continuaram na escuridão.
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