
Helena insistia que a casa precisava de ser purificada. Desde a mudança, acordava todas as noites com o mesmo cheiro a terra molhada. Jurava ouvir passos húmidos nos corredores e uma respiração lenta junto à cama. Sérgio não acreditava em assombrações, mas aceitou ajudá-la.
A receita estava num caderno antigo herdado da avó: água, sal grosso e alecrim. Segundo as notas amareladas, a mistura expulsava tudo o que não pertencia àquela casa.
Quando começaram a limpar o quarto principal, a água da bacia escureceu. Sérgio espreitou o reflexo. Não viu o próprio rosto. Do fundo da água, um homem magro observava-o. Os olhos eram completamente brancos. A boca estava cosida com fios negros.
Assustado, deixou cair a bacia.
A água espalhou-se pelo soalho.
Mas não escorreu.
Subiu.
Deslizou pelas paredes e pelo tecto como se a gravidade tivesse mudado de ideias, deixando marcas compridas que pareciam dedos.
Helena prosseguiu o ritual.
A voz tornou-se mais grave, mais antiga.
— Sai desta casa. Não tens lugar entre os vivos.
Nesse instante, todas as torneiras se abriram.
A água jorrou em cascatas violentas.
No espelho do guarda-fatos, Sérgio viu Helena imóvel. E viu também algo mover-se dentro dela.
Uma segunda figura começou a emergir do seu corpo, desprendendo-se lentamente como uma pele encharcada.
Quando a mulher que estava ao seu lado se voltou, os seus olhos eram demasiado claros.
— O ritual terminou.
Sérgio olhou para o espelho.
A verdadeira Helena permanecia presa atrás do vidro.
Esmurrava a superfície translúcida enquanto a água lhe enchia a boca.
Na manhã seguinte, a casa estava seca e impecável.
Os vizinhos comentaram como o casal parecia mais feliz.
Só Sérgio ouvia, todas as noites, água a correr atrás dos espelhos.
E a voz de Helena, cada vez mais distante:
— Não a deixes lavar o resto de mim.
Porque, a cada madrugada, o reflexo de Sérgio demorava um pouco mais a imitá-lo.
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