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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Invocação

Helena encontrou o manuscrito numa arca que pertencera à avó, escondido sob roupas consumidas pela humidade e retratos de familiares cujos rostos tinham sido cuidadosamente riscados. Entre páginas manchadas e margens cobertas de símbolos indecifráveis, uma frase permanecia intacta, como se tivesse resistido ao tempo por vontade própria: "Nunca chames pelo nome aquilo que não estás preparada para perder."

Três meses antes, o irmão de Helena morrera afogado num lago junto à aldeia. Desde então, ela carregava a culpa de uma discussão que nunca tiveram oportunidade de resolver.

Na noite marcada para o ritual, sentaram-se frente a frente na sala escura. Apenas quatro velas iluminavam o círculo desenhado no chão.

Helena pronunciou o nome do irmão.

Uma vez.

Duas.

Três.

O ar tornou-se pesado. As paredes estremeceram. E uma voz ergueu-se sob o soalho.

— Helena... porque me abandonaste?

As lágrimas surgiram imediatamente. Era a voz dele. Não uma imitação, mas a voz exata que habitava as suas memórias.

— Eu procurei-te... — soluçou.

A resposta veio acompanhada de um estalo profundo.

— Procuraste demasiado tarde.

O chão abriu-se numa fenda negra. Dela emergiu uma mão coberta de lodo, seguida de um braço impossível, longo demais para pertencer a qualquer ser humano.

Sérgio puxou Helena para trás, mas a voz continuou.

Começou por recordar segredos de infância.

Depois, momentos que apenas os dois irmãos conheciam.

Por fim, descreveu com precisão aterradora os pensamentos que Helena tivera naquela mesma manhã.

Foi então que ela compreendeu. Aquilo não era o irmão. Era algo que o conhecia. Algo que o tinha devorado.

Da fenda ergueu-se uma gargalhada composta por centenas de vozes, todas falando ao mesmo tempo, até que, no meio daquele coro monstruoso, Helena reconheceu a voz do irmão.

— Os mortos contam-me tudo.

A escuridão lançou-se sobre Sérgio e arrastou-o para a fenda.

Quando o silêncio regressou, o manuscrito estava fechado.

Helena nunca mais voltou a abrir aquelas páginas. Mas todas as noites escuta Sérgio a chamá-la de dentro das paredes. E, a cada madrugada, a voz dele sabe coisas que ela ainda não viveu.

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