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Contos ao Cair da Noite, inspirado no ritual de…. Fertilidade

Helena desejava um filho havia tanto tempo que já não conseguia entrar num quarto vazio sem sentir a ausência de alguém.

Quando uma mulher desconhecida lhe falou de um antigo ritual de fertilidade, aceitou sem hesitar. À meia-noite, enterrou um vestido de bebé junto à figueira do jardim. Sérgio derramou água sobre a terra enquanto ela repetia as palavras ensinadas pela estranha.

— O que a terra recebe, a terra devolve.

Naquela noite, Helena sonhou com uma criança que a chamava mãe. Um mês depois, estava grávida. A felicidade durou pouco. A barriga crescia depressa demais. Os movimentos eram violentos, quase desesperados. Por vezes, sentia pequenas mãos a pressionar-lhe as costelas pelo lado de dentro. Ao quinto mês, acordou a gritar. Sobre a pele do ventre formavam-se relevos. Dedos. Rostos. Bocas. Como se várias crianças procurassem saída ao mesmo tempo. Sérgio levou-a ao hospital.

Os médicos não encontraram explicação.

Nessa noite, Helena desenterrou o vestido de bebé. Debaixo dele encontrou um segundo embrulho que nunca ali colocara: um pequeno sudário infantil coberto de terra.

E uma frase escrita num papel apodrecido:

"Por cada vida implorada, outra deve regressar."

Quando levantou os olhos, viu dezenas de pequenas pegadas à volta da figueira.

Todas apontavam para a casa.

As dores começaram antes do amanhecer. Sérgio encontrou-a ajoelhada no jardim.

A terra à sua frente respirava.

Do solo húmido emergiram duas crianças. Tinham rostos perfeitos, olhos negros e a mesma covinha no sorriso de Helena.

— Mãe — disseram em uníssono.

Helena estendeu os braços.

As crianças abraçaram-na. E puxaram-na para debaixo da terra.

Quando Sérgio correu para a salvar, já não havia corpo.

Apenas a figueira, agora mais alta, com raízes que rasgavam a terra como dedos desesperados.

Entre elas, o rosto de Helena permanecia de olhos fechados.

Na primavera seguinte, a árvore deu frutos pela primeira vez.

E de cada fruto vinha o choro de uma criança.

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