
Helena e Sérgio partiram antes do amanhecer, levando consigo uma dor que, ao longo dos últimos cinco anos, se instalara em cada divisão da casa, à mesa durante as refeições e até entre os lençóis, onde o silêncio se tornara mais pesado do que qualquer palavra. Desde o acidente que lhes roubara a filha, nenhum dos dois conseguira verdadeiramente regressar à vida, e a peregrinação fora ideia de Helena, convencida de que uma antiga promessa de família, escrita num caderno herdado da avó, os conduziria finalmente ao descanso. Segundo aquelas páginas amareladas, quem levasse a própria culpa até ao santuário poderia encontrar a paz que os vivos já não conseguiam oferecer.
Ao cair da tarde, quando as pernas começavam a ceder ao cansaço, avistaram uma menina junto a uma capela abandonada. Vestia um casaco vermelho e segurava uma boneca sem cabeça, cuja saia esvoaçava ao vento. Helena parou de repente, sentindo o coração bater-lhe contra as costelas, porque reconheceu naquele rosto a mesma cicatriz sob o queixo, os mesmos olhos escuros e o mesmo sorriso da filha que enterrara cinco anos antes.
— Inês... — murmurou, incapaz de acreditar no que via.
A menina inclinou a cabeça e estendeu-lhe a mão, como se aqueles anos de ausência não tivessem passado de uma noite mal dormida.
— Mãe, finalmente encontraste o caminho. Vieste buscar-me, como prometeste.
Sérgio agarrou o braço da mulher, tentando afastá-la daquela aparição, mas Helena já caminhava em direção à criança, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Nesse instante, o céu escureceu e a estrada por onde tinham vindo desapareceu, substituída por um trilho estreito, ladeado de árvores negras cujos troncos se contorciam como corpos presos numa agonia interminável.
Sérgio seguiu-as, chamando pela mulher, até reparar nas cruzes que começaram a surgir ao longo do caminho. Eram centenas, talvez milhares, e em todas estava gravado o mesmo nome: Helena. Mais adiante, outras tantas exibiam o seu próprio nome, repetido numa sucessão que parecia não ter fim.
— Que lugar é este? — perguntou, sentindo a voz desfazer-se-lhe na garganta.
A menina voltou-se lentamente, revelando olhos inteiramente negros.
— É o lugar onde chegam todos os que fazem a promessa.
Helena caiu de joelhos, vencida por uma verdade que escondera durante cinco anos.
— Fui eu que causei o acidente — confessou, soluçando. — Tirei os olhos da estrada por um instante e nunca mais consegui ouvir a voz dela sem me lembrar do que fiz.
A menina aproximou-se e acariciou-lhe o rosto com uma mão gelada.
— Eu sei, mãe. Estive à tua espera.
A terra abriu-se sob os pés de Helena, e mãos pálidas emergiram da escuridão, agarrando-lhe os tornozelos e puxando-a lentamente para as profundezas. Sérgio lançou-se para a salvar, mas ela segurou-lhe a mão apenas por um instante, antes de a soltar com um sorriso sereno, o primeiro que ele lhe via desde a morte da filha.
— Deixa-me ir. Ela esteve sozinha demasiado tempo.
Quando o sol nasceu, Sérgio encontrava-se sozinho junto à capela, sem saber como regressara àquele lugar nem quanto tempo passara desde que perdera Helena. Nunca contou a ninguém o que acontecera, mas, a cada aniversário da morte da filha, regressa à mesma estrada, na esperança de encontrar um sinal de que a mulher finalmente descansou.
E, todas as vezes, descobre três pegadas na terra húmida: duas pequenas, lado a lado, e uma terceira, de mulher, que desaparece lentamente sob as raízes das árvores.
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