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A Abundância Possível


Há uma ideia que, de vez em quando, me atravessa o pensamento: será que podemos ter várias coisas boas ao mesmo tempo?

 Parece uma pergunta simples. Talvez. Mas basta olhar à nossa volta para perceber que muitas vezes vivemos como se existisse uma espécie de contabilidade invisível, onde nada nos é dado sem que alguma coisa tenha de ser retirada.

Se temos amor, já é muito.
Se temos saúde, não podemos pedir mais.
Se temos dinheiro suficiente para viver, não devemos desejar sorte.
Se temos uma família, não podemos queixar-nos da solidão. 
Se temos trabalho, não devemos desejar tempo.
 E, se alguma coisa corre demasiado bem, há sempre aquela voz, dentro ou fora de nós, que parece dizer: cuidado, porque alguma coisa virá cobrar a diferença.
Talvez tenhamos aprendido isto desde cedo.
Aprendemos a desconfiar da felicidade demasiado prolongada. A dizer "não me posso queixar" mesmo quando alguma coisa nos dói. A esconder um desejo porque alguém pode achar que já temos mais do que merecemos.
Chegamos a pensar que desejar outra coisa seria uma espécie de ingratidão perante aquilo que já recebemos. Mas não acredito nisso.
Não quero escolher.
Não quero acreditar que, por ter amor, tenha de abdicar da tranquilidade. Não quero pensar que, se tenho pessoas que amo, devo aceitar viver permanentemente preocupada com dinheiro. Não quero acreditar que a vida pesa felicidades contra ausências.
Quero acreditar que a vida pode ser mais generosa do que isso.
Não falo de ter tudo. Talvez ninguém tenha. Há sempre qualquer coisa que falta, qualquer porta que permanece fechada, qualquer sonho que chega tarde ou que nunca chega. A vida não é um catálogo onde escolhemos todos os artigos que queremos levar para casa.
Falo de não termos medo de desejar.
Desejar dinheiro suficiente para viver sem contar cada moeda não é materialismo.
Às vezes, dinheiro é apenas liberdade — o silêncio que fica quando deixamos de contar moedas. É o espaço entre o medo e o próximo mês.
É poder pagar uma consulta sem fazer contas durante uma semana. É poder viajar. É poder ajudar alguém. É poder substituir uma coisa que se estragou sem sentir que o mundo acabou.
Querer sorte também não significa esperar que o acaso resolva tudo.
A sorte não é magia. É direção — e, às vezes, basta um passo para mudar o mapa. E, quando avançamos, o mapa muda connosco.
É estar no lugar certo quando surge uma oportunidade. É alguém lembrar-se de nós. É um encontro inesperado.
É uma porta que se abre depois de tantas fechadas. E talvez possamos fazer alguma coisa para aumentar as possibilidades de a sorte nos encontrar.
Quem escreve pode enviar o texto. Quem quer viajar pode começar a procurar. Quem quer mudar de vida pode dar um primeiro passo. Quem deseja conhecer pessoas pode, simplesmente, sair de casa. Quem tem um sonho pode, pelo menos, colocá-lo no calendário.
A sorte gosta de movimento.
Também há quem confunda gratidão com conformismo.
Ser grato pelo que temos é uma coisa bonita. Mas dizer "já tenho isto, portanto não posso querer aquilo" é outra.
Posso amar profundamente a pessoa que está ao meu lado e, ainda assim, desejar realização pessoal.
Posso estar feliz com a minha casa e continuar a sonhar com uma viagem.
Posso agradecer o dinheiro que tenho e desejar ganhar um pouco mais.
Posso reconhecer aquilo que recebi e continuar a desejar outras coisas.
Não há contradição nisso.
Talvez a verdadeira questão esteja na diferença entre querer mais e nunca achar suficiente.
Uma coisa é desejar mais tranquilidade, experiências, segurança, saúde, afecto e tempo.
Outra é passar os dias a olhar para o que falta, sem ver o que já está diante dos nossos olhos. E existe esse perigo.
Podemos passar tantos anos à procura da próxima felicidade que esquecemos de viver a que já chegou.
Talvez o equilíbrio seja isto.
Não precisamos de escolher entre ambição e gratidão. Entre sonhar e apreciar. Entre crescer e saber parar.
Podemos fazer as duas coisas.
Podemos olhar para a mesa e agradecer o pão que temos, enquanto pensamos em construir uma mesa maior.
Podemos gostar daquilo que somos sem achar que a nossa história está terminada.
Podemos desejar mais sem tratar como insuficiente o que já recebemos.
A abundância talvez não seja ter tudo.
Talvez seja conseguir reconhecer as diferentes formas de riqueza enquanto continuamos a caminhar em direção àquilo que desejamos.
Há riquezas que cabem numa conta bancária. Outras cabem num abraço.
Algumas chegam numa viagem, outras numa conversa.
Há riquezas feitas de saúde, de tempo, de livros escritos, de animais que nos esperam em casa, de pessoas que permanecem. E há coisas que não conseguimos comprar, por muito dinheiro que tenhamos.
Por isso, não quero pedir pouco à vida.
Não quero apenas ter amor. Quero uma vida onde o amor tenha espaço para existir.
Não quero apenas dinheiro. Quero segurança suficiente para viver sem medo.
Não quero apenas sorte. Quero estar presente quando a oportunidade aparecer.
Não quero apenas saúde. Quero cuidar de mim enquanto caminho.
E não quero apenas sobreviver. Quero deixar alguma coisa de mim no mundo.
Talvez seja esta a diferença entre possuir uma vida boa e vivê-la.
Não se trata de exigir tudo. Trata-se de não limitar, à partida, aquilo que acreditamos poder receber, construir e viver.
Porque talvez não exista um preço obrigatório para as coisas boas.
Talvez seja apenas uma velha ideia.
E talvez, quando a vida se abre, nos ofereça essa graça rara: abundância sem culpa.


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