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Contos ao cair da Noite, inpirados no ritual de...Velório

Helena chegou ao velório ao fim da tarde, com a chuva a bater nos vidros altos da sala. As gotas escorriam pelas janelas, desfazendo as luzes da rua. As lâmpadas do tecto deixavam os rostos pálidos e faziam brilhar a cera das velas. Havia coroas encostadas às paredes, fitas negras pendendo dos vasos e um cheiro doce a lírios misturado com madeira encerada. Uma vela estalou baixinho. Depois, voltou a ouvir-se apenas a chuva e o tic-tac do relógio. Helena aproximou-se do caixão. O homem lá dentro parecia tranquilo. Ela não o conhecia. Tinha vindo por insistência de uma amiga. Sentou-se no fundo da sala, ouvindo o murmúrio de duas mulheres junto à porta. — Helena. Virou-se. As mulheres continuavam de cabeça baixa. O corredor estava vazio. Quando voltou a olhar para o caixão, pareceu-lhe que o morto sorria. Piscou os olhos. O rosto estava imóvel. Pouco depois, uma das mulheres aproximou-se. — É estranho vê-la aqui. — Porquê? — Pensei que fosse da família. — Não con...

Sementeira Vermelha

Pode ver o texto aqui:  https://www.fabrica-do-terror.com/contos/a-sementeira-vermelha/

Contos ao cair da noite, inpirados no ritual de...Puberdade

Helena tinha treze anos quando começou a reparar nas mudanças do corpo. Primeiro, quase nada. Um pouco de peito, pêlos onde antes não havia, o rosto diferente diante do espelho. A mãe dizia que era normal. — Estás a crescer. Helena queria acreditar. Numa tarde, enquanto procurava uma fotografia antiga numa gaveta, encontrou um retrato que nunca tinha visto. Mostrava uma rapariga de treze anos, talvez um pouco mais velha. Tinha os mesmos olhos de Helena e uma pequena cicatriz junto à sobrancelha esquerda. — Quem é ela? A mãe tirou-lhe a fotografia das mãos depressa demais. — Uma pessoa da família. Naquela noite, Helena ficou diante do espelho. Aproximou o rosto do vidro. Havia uma marca junto à sobrancelha esquerda. Uma cicatriz fina, quase impercetível. Passou o dedo sobre ela. Na manhã seguinte, tinha desaparecido. Helena voltou à gaveta e procurou a fotografia. A rapariga continuava lá. Os mesmos olhos. A mesma cicatriz. Virou o retrato. No verso, havia uma d...

Contos ao cair da noite, inspirados no ritual de ...Gravidez

Helena descobriu que estava grávida numa manhã de domingo. Ficou alguns minutos sentada na tampa da sanita, com o teste entre as mãos. Duas linhas. Sorriu antes de começar a chorar. Sérgio abraçou-a durante muito tempo quando lhe contou. Nas semanas seguintes, tudo correu bem. As consultas, as análises, as ecografias. Até ao quarto mês. Numa manhã, Helena sentiu o bebé mexer pela primeira vez. Uma pequena pressão sob a pele. Depois outra. Chamou Sérgio. — Põe a mão aqui. Ele pousou a palma sobre a barriga. Esperaram. Nada. Helena sorriu. — Foi agora. Nessa noite, acordou com uma sensação estranha. O bebé estava a mexer-se. Muito. Movimentos rápidos percorriam-lhe a barriga de um lado ao outro. Helena acendeu a luz. A pele ondulava sob a camisola. — Sérgio... Ele não acordou. Ela tocou-lhe no braço. — Sérgio. O movimento parou. Helena respirou fundo. Então ouviu três pequenas pancadas. Vindas de dentro. Toc. Toc. Toc. Levou a mão à barriga. — Bebé? Outra p...

Contos ao cair da noite, inspirados no ritual de...Iniciação

Helena chegou à casa pouco depois da meia-noite. A mulher que a esperava abriu a porta sem dizer uma palavra. — Está pronta? Helena assentiu. Tinha passado semanas à espera daquela noite. Entrou. As janelas estavam tapadas e dezenas de velas iluminavam a sala. No centro havia uma cadeira de madeira, rodeada por um círculo de sal. — Sente-se. Helena obedeceu. A mulher colocou-lhe nas mãos uma pequena taça de prata. Lá dentro havia água escura. — Beba. Helena hesitou. A água tinha um sabor estranho, metálico. Quase familiar. — A partir deste momento, não deve falar. A mulher afastou-se. Uma a uma, as velas começaram a apagar-se. Quando a última chama desapareceu, a escuridão tornou-se absoluta. Helena ouviu passos. Lentos. Descalços. À sua volta. Primeiro à frente. Depois atrás. Depois tão perto que sentiu uma respiração junto ao pescoço. Manteve-se imóvel. Os passos continuaram. Cada vez mais numerosos. Já não parecia existir apenas uma presença. Nem duas. Nem três....

E se...

 

Contos ao cair da noite, inspirados no ritual de ...Cura

Helena estava doente há quase um ano quando o médico lhe disse que existia uma cura. Não fez perguntas. Agarrou-lhe as mãos por cima da secretária e chorou em silêncio. O tratamento começou nessa mesma semana. As dores desapareceram primeiro. Depois vieram as noites tranquilas, o apetite, a cor no rosto. Ao fim de um mês, Helena já conseguia subir as escadas sem parar a meio. — Está a resultar — disse o médico. Ela sorriu. Nessa noite, dormiu profundamente pela primeira vez em muitos meses. Acordou pouco depois das três da manhã. Alguém estava sentado aos pés da cama. Ficou imóvel. A figura não se mexia. Helena acendeu o candeeiro. Não havia ninguém. Na manhã seguinte encontrou uma mancha escura sobre o lençol, exatamente onde julgara ver a silhueta. Convenceu-se de que tinha sonhado. Até começar a ouvir a voz. Primeiro no corredor. Depois na cozinha. Depois atrás da porta do quarto. Sempre durante a madrugada. Sempre a chamar por ela. — Helena... Quando perguntou ao...

Contos ao cair da noite, inspirados no ritual de...Amor

Helena acordou com a sensação de que alguém lhe acariciava o cabelo. Abriu os olhos devagar. O quarto estava mergulhado na penumbra. Sérgio dormia ao seu lado, voltado para a parede. Sorriu e voltou a fechar os olhos. Sentiu outra carícia, desta vez junto à face. — Amo-te — murmurou, ainda sonolenta. O silêncio respondeu-lhe. A mão desapareceu. Helena ficou imóvel, a escutar a respiração tranquila de Sérgio. Então sentiu um beijo na testa. Levantou-se de repente. O quarto estava vazio. Acendeu o candeeiro e passou o olhar pelas paredes, pelas cortinas, pelo roupeiro entreaberto. Nada. Voltou para a cama, mas o lençol do lado de Sérgio estava frio. — Sérgio? Nenhuma resposta. Estendeu a mão e tocou-lhe no ombro. O corpo virou-se lentamente. Os olhos já estavam abertos. Pareciam esperá-la. — Porque disseste isso? — perguntou ele. Helena sentiu o peito apertar-se. — O quê? Sérgio apontou para a porta do quarto. — "Amo-te." A maçaneta moveu-se. Um est...

Contos ao cair da noite, inspirados no ritual de...O Baptismo

A igreja estava quase vazia quando Helena entrou com o filho ao colo. A chuva tamborilava nos vitrais e o vento fazia ranger a pesada porta de madeira. Era o dia do baptismo. Junto à pia baptismal, o padre aguardava em silêncio, vestido de branco, as mãos repousadas sobre o livro aberto. — Estão prontos? Helena assentiu. O bebé dormia profundamente, aconchegado na manta. O cheiro da cera derretida misturava-se com a humidade das pedras antigas. Quando o padre mergulhou os dedos na água, um arrepio percorreu-lhe os braços. — A água vem de onde? — Da fonte antiga — respondeu ele. Helena baixou os olhos. A avó falara-lhe daquela fonte desde a infância. Contava que uma criança tinha morrido ali durante um baptismo e que, desde então, a nascente fora selada. O padre levou a mão à cabeça do bebé. — Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Os olhos da criança abriram-se. Não chorou. Fitou o padre durante alguns segundos. Depois voltou-se para a mãe....

Contos ao cair da noite ...A Sorte

Nessa noite, Helena encontrou uma moeda junto à porta de casa. Estava encharcada pela chuva, escurecida pelo tempo, mas um reflexo dourado destacou-se entre as pedras do passeio. Pegou-lhe e esfregou-a na manga. Sorriu. — Finalmente, alguma sorte. Guardou-a no bolso do casaco. Minutos depois, o telefone tocou. A voz do outro lado era grave e apressada. A mãe tinha piorado. Durante a viagem até ao hospital, a chuva martelou os vidros do carro. Helena manteve a mão fechada sobre a moeda. O metal gelado colava-se-lhe à pele. Encontrou a mãe acordada. Os olhos, demasiado abertos, seguiam cada movimento seu. — Trouxeste-a? — murmurou. — O quê? A mulher ergueu um dedo trémulo e apontou para o bolso do casaco. — A moeda. O sangue pareceu abrandar nas veias de Helena. — Como sabes que a encontrei? Lágrimas acumularam-se nos olhos da mãe. — Porque fui eu que a deixei à tua porta. O silêncio que se seguiu pesou mais do que a tempestade lá fora. — Mãe... estás inte...