O homem abre a carteira… e o silêncio da tasca muda de temperatura. Foi como se alguém tivesse aberto o túmulo de um faraó. Até o ventilador velho, preso ao tecto com fé e ferrugem, pareceu abrandar para assistir ao acontecimento. A carteira era castanha, grossa, veterana das guerras fiscais e balcões de cafés. Tinha marcas de uso tão profundas que parecia um mapa topográfico da miséria nacional. O homem abriu-a devagar, com solenidade, como quem revela os segredos do universo. Lá dentro havia: um talão de combustível de 2009, uma fotografia desfocada de um cão triste, três moedas de um cêntimo, um botão e um papel dobrado que dizia: “Não esquecer de comprar pescada.” Dinheiro? Nem o cheiro dele. O empregado aproximou-se cauteloso. — Vai pagar em numerário ou em lágrimas? O homem ergueu os olhos, cansados, húmidos de dignidade. — Amigo… se eu tivesse dinheiro, achas que andava a comer tremoços ao jantar há três semanas? A tasca inteira assentiu em respeito. Aquilo j...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...