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 Na aldeia, a procissão surgia ao crepúsculo, pés nus no pó frio. As caretas de cortiça rangiam, cheirando a resina e hálito velho. Segui a avó; a mão ossuda fechou-se no meu pulso. Os sinos chamavam quem não devia ouvir.

No adro, a fogueira arquejava, cuspindo fagulhas. Os cânticos torciam-se como lã molhada a ser espremida.

Em vez de um animal, trouxeram um boneco de centeio, entranhas de espinhos, boca cosida a fio negro. A lâmina abriu-lhe o ventre seco. O vento engasgou-se. A cinza correu e o chão estalou como barro antigo a ceder ao sol.

A avó inclinou-se. Cheirava a fumo e hortelã morta. Os olhos, vazios, não me reconheceram. Empurrou-me e as caretas viraram-se. As pernas falharam, o estômago subiu. A fogueira rasgou-se num túnel. Atravessei-o a tropeçar.

Ao amanhecer, a aldeia respirava intacta. As caretas dormiam nas arcas. Os sinos morderam-me o som, afinaram-no. Desde então carrego o ritual nos ossos, à espera da lua que me chamará outra vez.

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