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A Carteira

O homem abre a carteira… e o silêncio da tasca muda de temperatura.

Foi como se alguém tivesse aberto o túmulo de um faraó. Até o ventilador velho, preso ao tecto com fé e ferrugem, pareceu abrandar para assistir ao acontecimento.

A carteira era castanha, grossa, veterana das guerras fiscais e balcões de cafés. Tinha marcas de uso tão profundas que parecia um mapa topográfico da miséria nacional. O homem abriu-a devagar, com solenidade, como quem revela os segredos do universo.

Lá dentro havia: um talão de combustível de 2009, uma fotografia desfocada de um cão triste, três moedas de um cêntimo, um botão e um papel dobrado que dizia:

“Não esquecer de comprar pescada.”

Dinheiro? Nem o cheiro dele.

O empregado aproximou-se cauteloso.

— Vai pagar em numerário ou em lágrimas?

O homem ergueu os olhos, cansados, húmidos de dignidade.

— Amigo… se eu tivesse dinheiro, achas que andava a comer tremoços ao jantar há três semanas?

A tasca inteira assentiu em respeito. Aquilo já não era pobreza. Era património cultural.

Na mesa do canto, o Artur do gás comentou:

— Isso ainda não é nada. Uma vez abri a minha carteira e saiu uma traça com anemia.

Riram-se todos. Até o rádio, que só apanhava fado e estática, pareceu chiar com alegria.

O homem remexeu na carteira à procura de um milagre: um cupão, um euro esquecido, a dignidade. Encontrou um cartão de ginásio.

Olhou para ele durante uns segundos.

— Nem sei como isto aqui veio parar…

O empregado pegou no cartão, observou a data.

— Isto expirou em 2017.

— Foi a última vez que tive esperança. Ainda me lembro: fiz meia aula de localizada e desisti da vida.

Nova gargalhada geral. Nisto, entra um miúdo magricela, com uma t-shirt do Benfica três tamanhos acima, a vender rifas.

— Senhor, quer comprar uma rifa? Primeiro prémio: uma televisão de cinquenta polegadas.

O homem suspira.

— Filho… eu neste momento, ficava feliz era com cinquenta polegadas de fiambre.

O miúdo, com pena, oferece-lhe uma rifa grátis.

E foi aí que o destino, decidiu brincar com esse bêbedo profissional.

Dias depois, o homem ganha.

A vila inteira entrou em delírio. Veio no jornal local com fotografia, veio o presidente da junta apertar a mão como se tivesse descoberto petróleo.

No grande dia da entrega, toda a gente reunida no salão paroquial, o apresentador anuncia:

— E agora, o grande vencedor da televisão!

Abrem a caixa.

Lá dentro… não estava televisão nenhuma. Havia apenas uma carteira castanha velha.

Silêncio absoluto.

O homem aproxima-se, emocionado. Abre a carteira lentamente.

A sala inteira prendeu a respiração. Lá dentro estava exatamente a mesma arqueologia da falência e um papel dobrado: “Não esquecer de comprar pescada.”

O homem respirou fundo.

Depois virou-se para a multidão e disse:

— Agora tenho duas carteiras sem dinheiro. Já posso abrir franchising.

O presidente da junta bateu-lhe no ombro:

— Isso já conta como grupo empresarial.

 

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