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Monólogo: Escutem

 

Vivemos um tempo em que as pessoas deixaram de conversar. Gritam. Gritam porque acreditam que ouvir é fraqueza, que silenciar é submissão, que a pressa de se impor é mais importante do que compreender. E quando gritam, a minha raiva cresce. Cresce até se tornar quase física, um peso que empurra o peito, enriquece os músculos, prende a respiração. Cresce tanto que deixo de conseguir argumentar, deixo de conseguir explicar. 

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Sentavas-te no alto, como quem vigiava um reino que só tu conhecias. A janela era o teu posto. O sofá, o teu trono. E aquele olhar meio fechado, entre sério e desconfiado, era a tua maneira de dizer: "Está tudo em ordem. Eu estou a tomar conta." Nunca foste o gato que pedia colo nem mimos. Nem o que seguia cada passo nosso. Eras feito de vontade própria, de aventuras inesperadas, de arranhadelas, de resmungos e de uma personalidade impossível de esquecer. Houve dias em que nos fizeste rir. Outros em que nos pregaste partidas. E muitos em que fingias que não precisavas de ninguém. Mas precisavas. E nós também. A vida foi deixando marcas no teu corpo. Mazelas que nunca escolheste. Batalhas silenciosas que foste enfrentando sem nunca perderes aquilo que fazia de ti... um Ginger Lince. O teu resmungo. Que tantas vezes nos fazia sorrir e que hoje daríamos tudo para voltar a ouvir. Lutaste o tempo que conseguiste.Nós lutámos contigo. Fomos contigo ao veterinár...