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Meu Pequeno Resmungão

Sentavas-te no alto, como quem vigiava um reino que só tu conhecias.
A janela era o teu posto. O sofá, o teu trono. E aquele olhar meio fechado, entre sério e desconfiado, era a tua maneira de dizer:
"Está tudo em ordem. Eu estou a tomar conta."
Nunca foste o gato que pedia colo. Nem o que seguia cada passo nosso.
Eras feito de vontade própria, de aventuras inesperadas, de arranhadelas, de resmungos e de uma personalidade impossível de esquecer.
Houve dias em que nos fizeste rir. Outros em que nos pregaste partidas. E muitos em que fingias que não precisavas de ninguém.
Mas precisavas. E nós também.
A vida foi deixando marcas no teu corpo. Mazelas que nunca escolheste. Batalhas silenciosas que foste enfrentando sem nunca perderes aquilo que fazia de ti... Ginger Lince.
O teu resmungo.
Esse resmungo que tantas vezes nos fazia sorrir e que hoje daríamos tudo para voltar a ouvir.
Lutaste o tempo que conseguiste.
Nós lutámos contigo.
Fomos contigo ao veterinário, esperámos por respostas, agarrámo-nos a cada pequena esperança, a cada gole de água, a cada passo pelo logradouro, a cada respiração que desejávamos ver mais leve.
Mas houve um dia em que o teu corpo já não conseguia acompanhar a tua vontade de viver.
Os pulmões, que tantas vezes te roubaram o fôlego, pediram descanso.
E nós ouvimos esse pedido.
Não porque desistíssemos de ti.
Mas porque te amávamos demasiado para te prender ao sofrimento.
No teu último dia, olhaste para nós.
Reconheceste-nos.
E, fiel a quem sempre foste, ofereceste-nos o teu último resmungo.
Foi a tua despedida.
Então dissemos-te, com as lágrimas que o coração já não conseguia esconder:
"Foram oito maravilhosos anos.
Oito anos de aventuras e peripécias.
Oito anos de arranhadelas e resmungos.
Obrigado por cada momento.
Gostamos muito de ti.
Agora descansa.
Já não precisas de lutar mais."
Hoje, a casa parece maior.
Há um silêncio onde antes existia o som dos teus passos.
Há um canto vazio onde gostavas de dormir.
Há uma janela que continua à espera do seu guardião.
Mas também há uma certeza que o tempo nunca levará.
Não foste apenas um gato.
Foste família.
Foste companheiro.
Foste o guardião da casa, o dono do sofá, o senhor da janela, o aventureiro, o teimoso, o nosso eterno resmungão.
E gosto de imaginar que, onde quer que estejas agora, o ar entra nos teus pulmões sem esforço.
Que corres novamente sem cansaço.
Que o sol aquece o teu pelo ruivo, como tantas vezes aconteceu.
E que, de vez em quando, ainda resmungas um bocadinho...
Só para que o céu saiba que chegaste.
Até um dia, meu pequeno resmungão.
E obrigado por teres deixado as tuas pegadas para sempre nos nossos corações. 🧡🐈

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