Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Duplicada

Desafio da FDT - Partilhas:              Clara entrou no laboratório. O ar parecia sólido, mas quente demais, grudando na pele. À frente, cápsulas alinhadas, cada uma com uma versão dela, imóveis, perfeitas demais. Um sussurro atravessou a sala. Não vinha de lugar algum. Era sua própria voz, mas dizendo coisas que ela nunca pensara, lembranças que não eram suas. Ela piscou. Uma das cópias piscou meio segundo antes dela. O chão tremia, ou seria sua cabeça? Passos ecoaram, mas nenhum som chegou aos ouvidos. Tocou o vidro da última cápsula. Uma mão fria agarrou seu ombro. Virou-se. Não era uma presença, eram muitas. Olhos imóveis, atentos, pesando cada gesto, aguardando o instante exato. Os pensamentos estilhaçaram-se, dispersos como cinza ao vento. Quem delas sou? Quem vai permanecer? O riso dela, mas não dela, percorreu o ar. Na escuridão crescente, a primeira réplica falou, lenta: “Você sempre foi a última a perceber.” 

O que está dentro da gaveta?

A gaveta estava ali havia anos. Imóvel. Fechada. Silenciosa como um funcionário público às 16h59. Pertencia à cómoda da sala, aquela que a minha mãe dizia ser “de boa qualidade”, expressão que no nosso país significa apenas que pesa o suficiente para não ser roubada. Ninguém abria a terceira gaveta. A primeira tinha toalhas. A segunda, documentos importantes e três carregadores de telemóvel que não pertenciam a aparelho algum. Mas a terceira… era território proibido. Sempre que alguém perguntava “O que está na gaveta?”, a resposta vinha seca: “Depois vês.” Cresci com esse “depois vês” a ecoar na cabeça como um feitiço doméstico. Podia significar tudo, desde “há um tesouro” até “há contas por pagar”. A imaginação fazia o resto: mapas do tesouro, cartas de amor capazes de destruir casamentos, talvez o mítico ouro que o tio Patinhas jurava ter visto, mas que ninguém confirmou. Um domingo, depois do almoço, altura sagrada em que todos dormem a sesta e até o relógio pa...

A Estrada Não Perdoa

As estradas podem ser boas ou más. Há as novas, lisas, confiantes. Há as gastas, cheias de remendos e memória. Mas nenhuma estrada corrige a distração de quem conduz. O que decide nunca é apenas o piso, é o gesto. Um olhar que falha. Um segundo a mais. Um segundo basta. Conduz-se hoje como se o carro pensasse por nós. Entra-se, roda-se a chave, e parte-se. Poucos verificam pneus, óleo, travões. Confia-se que tudo funcione porque ontem funcionou. A máquina anda, logo está segura. Mas a segurança não é automática. É um hábito consciente que se renova todos os dias e que muitos deixaram cair. Na chuva e no nevoeiro, a estrada enche-se de sombras em movimento. Carros sem luzes. Outros apenas com mínimos, invisíveis atrás, como se não existissem. Avançam a velocidades incompatíveis com o que os olhos conseguem realmente captar. Pergunto-me se veem o caminho ou conduzem-se por memória, como quem atravessa um quarto escuro de olhos fechados, convencido de que nada mudou desde ontem. Os ...

O Inverno Que Regressou

  O frio chegou sem cerimónia, gelado e húmido, cortando a pele antes de ser sentido, trazendo o cheiro da terra revolvida e o toque metálico da chuva a bater nas telhas, devolvendo às manhãs uma luz cinzenta que não pede desculpa. Não anunciou visita. Entrou. Espalhou-se pelas ruas, infiltrou-se nas janelas mal vedadas, fez-se ouvir no ranger antigo das portadas. A chuva veio atrás dele, densa e persistente, com aquela autoridade que não se discute. E, de súbito, o país pareceu surpreendido por algo que sempre fez parte da sua história. Os velhos reconheceram-no de imediato. Encostados aos balcões dos cafés, mãos fechadas em torno das chávenas, disseram sem dramatismo: “Isto era o inverno da minha infância.” Não era saudade gratuita. Era memória concreta. Rios que cresciam sem pressa, valas abertas à enxada, a lâmina a cortar a região molhada, encostas deixadas em paz porque se sabia que a terra tem temperamento. O inverno era duro, mas conhecido, previsível na sua força. Hoje, ca...

O Segundo Apagão

       Vivemos convencidos de que tudo o que é elétrico é progresso. Troca-se o gesto pela tomada, o hábito pelo botão, o saber antigo por um painel digital que pisca e manda calar. Aquecer, cozinhar, trabalhar, pagar, pensar, tudo ligado à corrente, como se a vida fosse um aparelho doméstico. Confundimos conveniência com evolução e chamámos futuro a essa pressa confortável.      Até ao dia em que há um impacto. Uma depressão, meteorológica e não só, que escurece o céu e pesa por dentro.      A luz vai-se. E com ela vai-se muito mais do que a lâmpada do teto. O fogão não acende, o aquecedor silencia-se, o elevador transforma-se numa armadilha vertical. A porta automática não reconhece ninguém. A casa inteligente fica muda. O carro elétrico, imóvel, parece um animal cansado à beira da estrada.      Na rua, a teoria ganha rosto. Uma família diante do balcão da mercearia. O pão está ali, ainda quente. A água também. Mas não h...

A Hora em Que a Casa Respira

 O  relógio da sala estava parado às três e dezassete. Não avariado: cansado. Amélia aprendera a medir os dias por ele, e agora imitava-o — ficava sentada, rendida, à espera de que nada acontecesse. A casa cheirava a linho fechado e a ossos fervidos. As paredes tinham a cor dos dentes que já não mordem. Sobre a mesa, três peças de porcelana: duas gastas, uma intacta, branca demais para aquela divisão, como um erro esquecido. Amélia entrou com o pé a arrastar. O soalho gemeu, reconhecendo-a. No espelho do corredor, ajustou o lenço sem se encarar. O reflexo demorou a obedecer. Quando surgiu, o lenço já estava torto — e o reflexo não se apressou a corrigir. Amélia não sorriu. Na cozinha, a chaleira começou a chiar cedo demais, um som curto, aflito. Desligou o gás e pousou a mão no metal quente. O ardor espalhou-se devagar, confundindo-se com o cheiro da sopa esquecida, ambos igualmente antigos, ambos familiares. Sentou-se. Os joelhos estalaram. A porcelana intacta vibro...

Abraçar o desassossego

 

Desejos

Depois de 2025 ser um ano difícil, de travessias e silêncios.   Chega o 2026, um ano das mudanças, das sementes que germinam, das transformações que pedem coragem.   Que cumpra os desejos antigos e novos, meus e vossos, dos que me rodeiam.   Que traga a Paz onde houve tumulto, Amor onde faltou abraço, Tranquilidade onde reinou o cansaço.   Que sejamos sinceros, gratos e unidos. E que o “muito mais” venha com luz e com tempo.    

Desejos Natalícios

Neste Natal, não é preciso presente, é preciso estar presente. É preciso uma palavra dita no momento certo. Um gesto que conforta e a vontade simples de viver mais um pedacinho juntos. É preciso conviver entre família e amigos, sem mágoas guardadas, sem feridas abertas a pedir silêncio. É preciso olhar com honestidade, a vida é difícil para todos, cada uma à sua maneira, cada uma com o seu peso. Que este Natal nos devolva, o que nunca deixou de ser nosso: a presença que aquece, o perdão que desarma, a humanidade que acende, o amor que insiste em ficar.  

Substitutos

Quando os corpos começaram a desaparecer, ninguém parecia surpreso. Primeiro foi o cão de Mariana, depois o gato do vizinho, sempre à noite, sempre silencioso. Pela manhã, objetos novos ocupavam os lugares vazios: relógios, bonecas, vasos. Mas o ar pulsava, espesso, quente e metálico, dobrando-se à volta, como se respirasse por dentro da pele de quem olhava. Mariana começou a tentar corrigir os objetos: alinhar a cadeira, ajeitar a boneca, substituir o vaso por outro. Cada tentativa falhava. Os objetos moviam-se sozinhos, ajustando-se, melhorando, impondo uma ordem invisível. Sentiu o chão vibrar sob os pés, a brisa cheirar a ferro queimado, um som surdo reverberar nos ossos. A mudez observava, aguardava, corrigia. Numa noite, seguiu passos suaves até ao quintal. Uma figura encapuçada observava. Tentou falar, mas a voz dissolveu-se. O cão estava imóvel, olhos humanos, cabeça girando impossível. O chão ondulava, o vento tornou-se sólido, o tempo desacelerou. O substitut...

A Vida que Volta a Caber

  Há um tipo de regresso que não faz barulho. Não é fuga, nem proclamação. É ajuste. Uma mudança de escala. Começa devagar, quase sem nome, como quem baixa o volume do mundo para conseguir ouvir outra coisa. A primeira renúncia não é a cidade. É a pressa. Depois vem o resto. A terra aparece sem cerimónia. Não como ideia, mas como exigência. Fria no inverno, dura no verão, indiferente ao desejo humano de controlo. A horta não responde a intenções, responde a presença. Quem a cultiva aprende cedo uma lição antiga: nada cresce porque se quer — cresce porque se cuida. Começa-se com o simples. Couves, tomates, cebolas, ervas que sobrevivem sem narrativa. Depois vêm os coelhos, discretos, quase mecânicos na sua continuidade. Depois as galinhas, que não conhecem relógios, apenas ciclos. E, sem anúncio, o mundo estreita-se. O carro deixa de ser eixo. Às vezes nem chega a existir. Não por princípio, mas por inutilidade. O caminho passa a ser curto, concreto, repetido. O comb...