Na zona antiga da cidade, onde as paredes acumulavam sal e memórias que já ninguém sabia nomear, existia uma associação discreta instalada num piso alto. As janelas estreitas deixavam entrar uma luz filtrada, que parecia ter atravessado demasiados invernos. O interior cheirava a papel envelhecido, madeira encerada e chá leve. Ali não se falava alto. Tudo existia com a paciência de quem sabe que certas coisas só duram quando não são apressadas. Uma vez por ano reunia-se um pequeno grupo de pessoas vindas de geografias diferentes para um exercício pouco comum: escrever a alguém desconhecido. Chamavam-lhe "Amigo Secreto". A regra era antiga na sua simplicidade. Cada participante recebia um nome ao acaso, retirado de um envelope creme, dobrado da mesma forma que todos os outros. Durante três meses, escreviam-se cartas semanais. Sem assinatura. Sem pistas evidentes. Apenas linguagem entregue a um desconhecido. O compromisso era a regularidade. O resto pertencia ao es...
O que ouvi, o que senti, o que fiz
e o que despertou a minha curiosidade...