Todos os verões parecem trazer a mesma frase: "Nunca esteve tanto calor." Logo a seguir chegam os mapas pintados de vermelho, os alertas, as reportagens e as manchetes que anunciam ondas de calor como se o verão tivesse deixado de ser uma estação para passar a ser uma ameaça permanente.
Mas será mesmo assim?
Quem tem memória lembra-se de outros verões. Dias de 35 ou 40 graus não nasceram agora. Houve ondas de calor em 1981, em 1991, em 2003 e noutras ocasiões. Houve secas que estalaram a terra, tempestades que derrubaram árvores e inundações que transformaram ruas em rios. Os extremos sempre fizeram parte da natureza. O tempo nunca foi uma linha reta.
Talvez a grande diferença não esteja no céu.
Talvez esteja na terra que fomos construindo.
Há dias em que Lisboa parece uma frigideira esquecida ao lume. O ar não circula. Fica ali, parado. Como se também estivesse cansado. Ao meio-dia, até o som parece abrandar. O zumbido constante do trânsito mistura-se com o cheiro do asfalto aquecido pelo sol. O calor sobe do chão, desce das fachadas e envolve quem passa.
Veem-se pessoas encostadas às poucas sombras que restam. Um idoso abranda o passo antes de chegar à paragem do autocarro. Um estafeta limpa o suor da testa enquanto consulta o telemóvel. Uma criança corre para o jato de água de uma fonte como se tivesse descoberto um pequeno oásis. São gestos banais. Mas dizem muito sobre a cidade que construímos.
Depois chego a casa.
O ar muda. Respira-se melhor. Há mais árvores, mais espaço, menos trânsito, menos betão. A temperatura pode nem ser muito diferente, mas o corpo sente imediatamente a mudança. É nesses momentos que percebemos que o calor não depende apenas do que marca o termómetro. Depende também da paisagem que criámos.
E essa paisagem mudou muito.
Durante anos confundimos desenvolvimento com mais construção. Onde havia árvores abriram-se estradas. Onde existiam jardins ergueram-se edifícios. O betão ocupou o lugar da terra, e a sombra foi desaparecendo sem que déssemos por isso. Hoje começamos a sentir o preço dessas escolhas.
O calor, afinal, também é uma questão de cidade.
E também é uma questão social.
O calor não escolhe pessoas. Mas a cidade acaba por escolher quem o sente mais. Há quem atravesse o verão em espaços climatizados e quem passe horas numa paragem de autocarro sem uma única árvore. Há quem regresse a uma casa fresca e quem viva num último andar onde o calor fica preso até de madrugada. Há quem trabalhe ao ar livre enquanto outros encontram refúgio em edifícios climatizados.
A temperatura pode ser a mesma.
A experiência nunca é.
É precisamente por isso que a comunicação também pode fazer a diferença.
É importante avisar que uma onda de calor pode ser perigosa, sobretudo para idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crónicas. Mas o alerta ganha verdadeiro valor quando vem acompanhado de soluções práticas.
Beber água com frequência. Evitar caminhar nas horas de maior calor. Procurar locais frescos. Fechar as persianas durante o dia. Telefonar aos pais, aos avós ou ao vizinho que vive sozinho. Pequenos gestos que parecem banais, mas que podem fazer toda a diferença.
Informar não é apenas avisar.
É ensinar.
É cuidar.
Mas há uma responsabilidade que não cabe apenas a cada um de nós.
As cidades também precisam de aprender.
Uma árvore não é um enfeite urbano. É sombra para quem caminha, frescura para quem espera pelo autocarro, abrigo para quem trabalha na rua. É uma forma silenciosa de baixar a temperatura, melhorar a qualidade do ar e ajudar a absorver a água quando a chuva cai com violência.
Um jardim não ocupa espaço. Oferece qualidade de vida.
Construir continuará a ser necessário. As pessoas precisam de casas e as cidades precisam de crescer. Mas crescer não deveria significar apagar tudo o que é verde. O verdadeiro progresso talvez esteja em conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo: construir melhor e preservar aquilo que nos ajuda a viver melhor.
O verão continuará a chegar. Como chegou aos nossos pais e aos nossos avós. Haverá anos mais amenos e anos mais severos. Sempre foi assim.
O que nunca deveria ser inevitável é transformar as cidades em lugares onde respirar custa mais do que caminhar.
Talvez a verdadeira discussão não seja apenas quantos graus marca o termómetro, mas que cidades queremos deixar às próximas gerações. Cidades onde o betão domina cada esquina ou cidades onde uma árvore continua a ser vista como uma necessidade e não como um luxo.
O verão não mudou tanto. Mudou foi o chão onde o recebemos.

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