Ninguém sabia de onde vinha o velho Mestre. Uns diziam que passara a vida entre bibliotecas esquecidas; outros juravam tê-lo visto atravessar desertos, mosteiros e cidades onde as palavras pareciam mais antigas do que as próprias pedras. Mas todos concordavam numa coisa: quem aceitasse um dos seus desafios nunca mais voltava a olhar para a língua portuguesa da mesma maneira.
Numa tarde de verão, pousou sobre a mesa um pequeno cofre de madeira escura. Não tinha fechadura, dobradiças visíveis nem qualquer sinal de chave. Apenas uma inscrição gravada na tampa: «Abre-me com sete partes do corpo humano.»
Pela janela entreaberta entravam os sons da praça. Ao longe, uma melodia elevava-se da velha igreja. Os acordes eram tão profundos que pareciam fazer respirar as paredes de pedra e espalhavam-se pelas ruas como um fio invisível, fazendo vibrar o silêncio.
— Parece fácil... — comentou um rapaz. O Mestre sorriu.
— Os enigmas mais difíceis são aqueles que se apresentam com a simplicidade das coisas evidentes.
Retirou um pergaminho amarelecido pelo tempo e leu, pausadamente:
«Encontra as sete partes do corpo humano que...»
...desperta o silêncio adormecido nas catedrais;
...é uma ferramenta;
...serve para ferrar cavalos;
...esconde um número romano;
...aproxima desconhecidos sem dar um único passo;
...pode aprender numa sala de aula;
...conduz sem nunca caminhar.
Quando terminou, enrolou lentamente o pergaminho entre os dedos. Ninguém ousou quebrar o silêncio.
As frases pareciam menos perguntas do que antigas sentenças, como se tivessem sido escritas por alguém que conhecia segredos perdidos da língua.
Ninguém perguntou se todas as respostas pertenciam realmente ao corpo humano. Deram-no por adquirido e começaram a percorrer, em pensamento, cada osso, cada músculo, cada detalhe da anatomia.
Lá fora, porém, a aldeia continuava a viver.
O ferreiro mergulhava o ferro incandescente na água antes de lhe dar nova forma. Numa oficina próxima, um artesão escolhia cuidadosamente o instrumento de que precisava, sem imaginar que segurava, entre os dedos, uma peça do enigma.
Junto à fonte, uma professora chamou uma jovem estudante. A rapariga ergueu os olhos e, durante um instante, pareceu que era a própria luz que habitava o seu olhar quem respondia ao chamamento.
No cais, homens vindos de horizontes diferentes trocavam palavras que nenhum dos presentes compreendia. Ainda assim, sorriam como velhos conhecidos.
Um viajante, inclinado sobre um mapa muito antigo, seguia demoradamente um traço estreito que rasgava a paisagem, convencido de que alguns caminhos eram mais antigos do que os homens que os percorriam.
Ao virar o mapa, reparou numa pequena marca desenhada a tinta desbotada: CIX. Não era um número de estrada, nem um ponto cardeal. Talvez um vestígio de quem o desenhara, talvez nada. Mas ficou ali, como um sussurro que ninguém soube interpretar.
Todos insistiam em procurar dentro do cofre aquilo que a aldeia lhes oferecia diante dos olhos. O Mestre observava-os em silêncio.
De vez em quando pousava a mão sobre a tampa, como quem escutava o coração adormecido da madeira. Por fim, murmurou:
— As palavras são como antigos viajantes. Mudam de rosto sem deixarem de ser quem são. Algumas vivem duas vidas. Outras escondem muitas mais.
A tarde cedeu lentamente lugar ao crepúsculo. As sombras alongaram-se pelo chão, enquanto a chama da vela oscilava ao sabor de uma corrente de ar quase impercetível.
Os presentes discutiram, hesitaram, recomeçaram inúmeras vezes. Cada hipótese parecia aproximá-los da solução, mas o cofre permanecia imóvel, como se aguardasse uma chave feita de entendimento e não de respostas apressadas.
Quando o último raio de sol desapareceu atrás das colinas, o Mestre enrolou o pergaminho. Ergueu o pequeno cofre sem esforço. Antes de partir, voltou-se apenas uma vez.
— O corpo foi apenas o esconderijo. Os verdadeiros cofres sempre foram as palavras. Quem aprende a abri-las descobre que uma única pode guardar um mundo inteiro.
E seguiu pela velha estrada. Dizem que o cofre continua fechado.
E que só se abre diante de quem compreenda que as palavras, tal como as pessoas, nunca revelam tudo à primeira vista.
Aceitas o desafio? Descobre as sete respostas e abre o cofre do velho Mestre.

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