Havia uma estrada antiga que atravessava uma floresta.
Era estreita, feita de pedras gastas e silêncio. Em alguns trechos, desaparecia quase por completo debaixo das folhas húmidas. Noutros, as raízes levantavam o chão, obrigando quem passava a escolher com cuidado onde pousava os pés.
De um lado, corria água.
Acompanhava a estrada devagar, como quem caminha ao lado sem pedir atenção. À superfície, o céu surgia em fragmentos entre as copas. Bastava um sopro de vento para desfazer o reflexo em pequenas ondas que morriam junto à margem.
Do outro lado, erguiam-se árvores muito altas. Os troncos subiam direitos e escuros, perdendo-se na folhagem. Eram tão altos que escondiam o horizonte.
Ao longe, entre os troncos, brilhava uma pequena luz. Não se sabia de onde vinha. Nem para onde levava.
Duas pessoas caminhavam pela estrada.
Tinham chegado ali vindas de caminhos diferentes, mas há muito que aprenderam a caminhar juntas. Cada uma trazia consigo uma história que a outra não conhecia por inteiro.
Às vezes caminhavam de mãos dadas. Outras vezes, bastava-lhes a proximidade dos ombros.
Um levava um mapa. Guardava-o dobrado junto ao peito, protegido da humidade. Às vezes parava, abria-o com cuidado e seguia com o dedo as linhas, tentando reconhecer o lugar onde estavam.
Era alguém que gostava de saber para onde ia, porque já tivesse aprendido que há caminhos que se perdem quando deixamos de prestar atenção às marcas que ficaram para trás.
A outra levava uma lanterna. Segurava-a numa das mãos e caminhava devagar, deixando que a luz abrisse apenas alguns metros de estrada.
Não tinha respostas para tudo. Nem precisava de as ter. Sabia apenas iluminar o lugar onde estavam.
— Talvez devêssemos seguir por aqui — dizia a pessoa do mapa.
A outra levantava a lanterna, observava a estrada e demorava um instante antes de responder.
— Talvez.
E continuavam.
Às vezes concordavam. Outras vezes, não.
Havia momentos em que um queria avançar e a outra precisava de parar. Momentos em que o mapa apontava uma direção, mas a estrada parecia contar outra história.
Nessas alturas, ficavam em silêncio.
Fechava o mapa. A outra baixava a lanterna.
Por vezes, um procurava a mão da outra. Era um gesto pequeno, quase distraído, mas dizia aquilo que as palavras não diziam. E retomavam o caminho.
Nunca deixavam de caminhar lado a lado.
Certa noite, a floresta tornou-se tão escura que até as árvores pareciam aproximar-se. O ar estava húmido e cheirava a terra molhada. Sob os pés, as folhas estalavam a cada passo.
A pessoa do mapa parou. Abriu-o. Leu-o uma vez. Depois outra. Passou o dedo por uma linha que já não conseguia relacionar com a estrada diante dos olhos. Virou o papel.
Respirou fundo. Mas o mapa não conseguia mostrar aquela escuridão.
— Não sei onde estamos — disse, por fim.
A outra levantou a lanterna. O círculo de luz revelou apenas alguns metros de estrada: uma pedra coberta de musgo, uma raiz grossa atravessada no caminho, um pequeno espaço de terra firme.
Nada mais.
— Eu também não sei — respondeu.
A pessoa do mapa estendeu a mão. A outra segurou-a.
Ficaram em silêncio, ouvindo apenas a água e o rumor distante das folhas. Naquele momento, perceberam que nenhum dos dois possuía aquilo que procurava.
Um tinha a direção. O outro tinha a luz. Mas nenhum conseguia ver o caminho inteiro. Então continuaram sem saber.
Um passo. Depois outro.
A pessoa do mapa indicava a direção que lhe parecia certa. A pessoa da lanterna iluminava o chão.
Quando surgia uma pedra, avisava. Quando o caminho se tornava mais seguro, avançava primeiro. Sem darem por isso, começaram a adaptar o passo um ao outro.
Quando uma tropeçava, o outro parava. Quando um se cansava, a outra abrandava. Quando um precisava de silêncio, a outra respeitava-o. E quando surgia uma dúvida, não discutiam com a estrada.
Esperavam. Olhavam. E seguiam.
Ao longe, a pequena luz continuava ali. Às vezes parecia mais próxima. Outras vezes desaparecia por entre os troncos. Mas nunca deixava de existir.
Com o passar do tempo, compreenderam que talvez tivessem cometido um erro ao pensar que precisavam de chegar depressa.
A estrada não lhes tinha prometido ser fácil. Nem curta. Nem sequer lhes tinha prometido que a luz ao longe seria aquilo que imaginavam. Apenas lhes oferecia espaço para caminhar.
Juntos.
Um dia, depois de uma longa subida, chegaram a um lugar onde as árvores se afastavam um pouco. Pararam.
A pessoa do mapa olhou para as páginas gastas, marcadas por dobras e manchas de humidade. Fechou-o.
— Já não preciso de saber tudo — disse. A outra sorriu e baixou a lanterna.
— E eu já não tenho medo de não conseguir iluminar tudo.
Ficaram alguns instantes a olhar para a estrada. Depois, sem dizer nada, entrelaçaram novamente as mãos.
Tinham aprendido.
O mapa nunca tinha servido para mostrar toda a viagem. A lanterna nunca tinha servido para iluminar toda a estrada.
Um mostrava uma direção. A outra dava coragem para avançar. E talvez fosse isso que significava caminhar ao lado de alguém que se ama.
Não encontrar uma pessoa que tivesse todas as respostas. Nem alguém que soubesse exatamente onde a vida iria levar-vos. Mas alguém que, quando a estrada ficasse escura, permanecesse.
Alguém que não precisasse de prometer que tudo iria correr bem. Bastava dizer:
— Vamos.
A pequena luz permanecia ao longe.
Seguiram pela velha estrada. Sem certezas. Sem promessas sobre o que existia depois da próxima curva. Mas juntos. E, enquanto caminhavam, perceberam que não precisavam de ver muito longe.
Precisavam apenas de confiar no próximo passo. Um no outro. Porque há viagens que não são feitas para chegar depressa. São feitas para descobrir que, quando duas pessoas escolhem caminhar verdadeiramente lado a lado, nenhuma precisa de carregar sozinha o peso da escuridão.

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