03:17.
Ela não dormia havia dias, mas não era bem insónia. Era outra coisa. Uma vigília involuntária, alguém dentro dela precisava que ela ficasse acordada.
Os pontos puxavam devagar, num ritmo que não era o do seu corpo. Às vezes pousava os dedos sobre a cicatriz para sentir o calor dali. Não era febre. Era presença.
Lembrou-se da enfermeira antes da anestesia. “Vai correr bem.” Mas a voz soava agora como eco dum corredor que nunca existiu.
Naquela noite, acordou com a sensação de que o quarto respirava. As cortinas não se mexiam. O roupeiro não se mexia. A cadeira no canto não se mexia. Mas o ar tinha pulso.
Depois sentiu o húmido. A cicatriz abrira um pouco. Uma linha fina. Escura. Mas não sangrava, parecia mais uma fenda no tecido de qualquer coisa maior.
Ela não gritou.
O silêncio do quarto era tão denso que parecia observar.
Então algo se moveu sob a pele.
Devagar.
Como uma ideia a tentar lembrar-se de si própria.
Ela apertou a barriga com as duas mãos, num gesto quase maternal, como quem tenta segurar um pensamento que escapa.
— Não — sussurrou.
A carne cedeu. Um estalo suave, quase um suspiro.
Da ferida surgiu uma unha. Pequena. Humana. Mas a sombra que projetava no lençol era maior do que devia ser.
Ela recuou. No espelho da cómoda, o quarto refletia-se inteiro, exceto ela. Mostrava a cama vazia.
Da ferida saiu outro dedo. Depois metade de uma mão. Movia-se como alguém que regressa de muito longe.
Ela chorou sem perceber.
Não de medo.
Era como reencontrar algo que tinha perdido antes de nascer.
Quando o rosto começou a emergir, reconheceu os próprios olhos, mas não eram dela. Eram de uma versão que nunca viveu.
A criatura falou com uma voz que parecia vir de várias direções:
— Deixaste-me presa no tempo errado.
No espelho, a cadeira apareceu finalmente ocupada. E sorriu.

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