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Não Abrir - desafio a 4 mãos, 2 autoras

 

A dentadura reapareceu na gaveta das meias, três dias depois de ter desaparecido. Ninguém sabia explicar como tinha ido ali parar, muito menos de onde vinha aquele som do mar — ondas a rebentar contra a areia, cada vez mais próximas, embora a praia mais perto ficasse a dezenas de quilómetros

Rita entrou de manhã para limpar o quarto, como fazia todos os dias. Levava o pano do pó no bolso do avental branco e a vassoura na mão. Ouviu um ruído ao pisar e, quando olhou para o chão, viu-o coberto de areia. O som persistente das ondas chegava-lhe aos ouvidos e, surpreendida, disse em voz alta:

— Estou a ouvir o mar!

Ficou imóvel, apertando o cabo da vassoura. O som vinha de dentro do quarto, mas não havia janela aberta, nem vento, nem explicação para a areia espalhada pelo chão. Ajoelhou-se para a apanhar e viu algo a brilhar junto à cama.

Era uma fotografia antiga, amarelada pelo tempo. Pegou-lhe com cuidado e limpou a areia com o polegar. Na imagem, uma mulher estava sentada precisamente naquela cama. Rita reconheceu imediatamente o quarto, mas não a mulher.

Virou a fotografia. No verso, encontrou uma data escrita à mão: 17 de agosto de 1963. Nesse instante, o som do mar voltou, mais forte. As ondas pareciam rebentar do outro lado da parede.

O som assustou-a e ela olhou ao redor para tentar perceber de onde vinha. Não havia lógica para o ouvir ali dentro. Reparou na foto que segurava; a mulher estava sentada ligeiramente de lado na cama e sorria. Tinha o cabelo negro, pelos ombros, e usava um vestido simples e luvas nas mãos.

Aquela data inscrita não tinha significado para Rita. Colocou-a sobre a mesa de cabeceira e pegou novamente na vassoura. Queria acabar de limpar o chão e esquecer aquela estranha ocorrência.

Começou a varrer, mas a areia não acabava. Quanto mais a empurrava para um canto, mais aparecia junto à cama. Irritada, ajoelhou-se e apanhou um punhado com a mão. Sentiu algo duro entre os dedos.

Era uma pequena chave de metal, escurecida pelo tempo. Limpou-a no avental e ficou a observá-la. Presa por um fio, tinha uma pequena etiqueta com duas palavras escritas a tinta: “Não abrir.”

Rita voltou os olhos para a fotografia. Só então reparou melhor nas luvas da mulher. Eram finas, de tecido, e cobriam-lhe completamente as mãos. Por alguma razão, aquela imagem já não lhe parecia apenas uma fotografia antiga.

A mulher também não lhe parecia inocente.

Observou a chave. Talvez abrisse algum armário ou uma gaveta escondida naquele quarto. Apesar do aviso, experimentou-a nas fechaduras da cómoda, do guarda-fato, da mesa de cabeceira.

Nenhuma serviu.

Estava prestes a desistir quando se lembrou da fotografia. Talvez houvesse ali alguma coisa que explicasse quem era aquela mulher e a razão de a areia e o som das ondas terem surgido no quarto.

Foi então que reparou numa pequena fechadura escondida na parte inferior da cama. A madeira estava coberta de pó e areia. Ajoelhou-se, introduziu a chave e ouviu um estalido seco. Uma das tábuas levantou-se ligeiramente e ela puxou-a.

Debaixo da cama havia um compartimento estreito, quase invisível. Lá dentro encontrou uma caixa de madeira. Abriu-a devagar. Continha um lenço de mulher, um molho de fotografias e um recorte de jornal dobrado várias vezes.

Rita pegou no recorte. A fotografia da mulher de luvas estava na primeira página. Por baixo da imagem, uma frase fez-lhe perder o ar: “Mulher desaparece sem deixar rasto durante a noite de 17 de agosto de 1963.”

— Quem és tu? —  Disse baixinho, tocando na imagem da mulher. Uma onda rebentou. Depois outra.

Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Grãos de areia começaram a cair do teto, dispersos pela luz que entrava da janela. Espalhavam-se sobre a cama, a mesa de cabeceira e o chão. Sacudiu o recorte do jornal e reparou que, na imagem, ao fundo, estava uma mesa de cabeceira. Sobre esta, um copo com água e uma dentadura. Rita aproximou a imagem dos olhos.

A dentadura.

            A mesma que desaparecera três dias antes.

            Estava ali, na fotografia de 1963.

Durante alguns segundos, não conseguiu desviar os olhos daquela dentadura fotografada há mais de sessenta anos. Era impossível. Tinha-a visto desaparecer da gaveta e reconheceria aquelas manchas amareladas em qualquer lugar.

De repente, ouviu um ruído atrás de si. Não era o mar.

Era a porta do quarto. Rangia lentamente enquanto começava a fechar-se sozinha. Rita levantou-se num salto e correu para ela. Antes de conseguir alcançá-la, sentiu água fria tocar-lhe os pés.

Olhou para o chão. A areia estava molhada. Uma fina camada de água avançava por baixo da cama, trazendo pequenas conchas. O som das ondas encheu o quarto. Rita recuou, apertando o papel contra o peito. Na imagem, a mulher de luvas já não sorria. Aproximou a fotografia da janela. Foi então que viu algo que não tinha reparado antes. No reflexo do espelho, atrás da mulher, havia alguém de pé. Essa pessoa segurava na mão exatamente a mesma dentadura.

— Não devias ter aberto — ouviu uma voz dizer.

Virou-se devagar. A mulher da fotografia estava sentada na cama, as mãos cobertas de areia molhada. Quis gritar, mas o som das ondas engoliu-lhe a voz. A mulher sorriu. Não tinha dentes. Do chão veio um ruído seco. A dentadura acabava de cair aos pés de Rita.

— Estava à tua espera.

Na manhã seguinte, a dona do quarto entrou à procura de Rita. Não havia areia. Nem água. O chão estava limpo.

Em cima da cama encontrava-se a pequena chave de metal. Dentro da gaveta das meias, estava a dentadura. Ao lado, uma fotografia dobrada. A mulher de 1963 continuava sentada na cama. Mas, atrás dela, agora havia duas pessoas.

Uma delas era Rita.

A outra olhava diretamente para quem segurava a fotografia. Esperava que alguém, um dia, voltasse a abrir.

Na margem inferior da imagem, onde não havia nada, uma nova linha surgira, escrita a tinta quase apagada:

“Não é a última.”

Autoras: Lara Fernandes e Sónia Pedroso 

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