Avançar para o conteúdo principal

Publicação de um conto meu: "O Expresso dos Brinquedos Luminosos"

À meia-noite, quando a casa dormia como pedra antiga aquecida pelo tempo, Leo ouviu um tilintar na janela. Espreitou e ficou sem palavras: um pequeno comboio feito de luz e memória deslizava no ar, como se o céu tivesse aprendido a andar sobre carris invisíveis, deixando um rasto de luz que parecia respirar.

Na frente, uma placa brilhava: Expresso dos Brinquedos Luminosos — Viagem aos Corações Esquecidos.

A porta abriu-se sozinha. Tobias, o ursinho, agora vivo e de olhar sério, observou-o:
— Nem todos conseguem entrar, só quem ainda sabe lembrar com o coração desperto.

Leo hesitou. O chão lá dentro parecia feito de ecos. Mesmo assim, entrou.

O comboio seguia cheio de vida: bonecos murmuravam segredos, carrinhos riam em corridas sem destino e livros folheavam-se como quem procura o próprio nome. Mas havia um silêncio estranho à frente deles.

O Armazém das Coisas Esquecidas era frio e cheirava a madeira parada, como se o tempo ali tivesse deixado de respirar. Lá dentro, brinquedos apagados esperavam sem esperança. Um soldadinho de lata não levantava os olhos. Uma bola antiga nem tentava saltar.

Leo aproximou-se devagar, com a delicadeza de quem toca numa memória ferida, mas nada aconteceu. Tobias baixou o olhar:

— Lembrar é só o começo. O resto é querer que a luz volte.

Leo respirou fundo, limpou o pó com cuidado e disse o nome do soldadinho como quem chama alguém perdido. Sussurrou coragem, uma vez, outra, até a voz ganhar calor.

O metal brilhou. A bola hesitou… e depois saltou como se tivesse voltado a nascer.

Na viagem de regresso, o silêncio já não pesava.

De manhã, Leo encontrou uma pena dourada no bolso. Só brilhava quando algo importante era esquecido. E, por isso, ele passou a escutar a noite como segredo antigo que ainda não terminou de ser contado.


Lançamento do Livro na Feira do Livro no Porto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Morte, violação ou boca de palhaço?"

Na altura do Carnaval, ouvi falar de um caso que me arrepiou imenso. Duas jovens universitárias tinham sido interpeladas por um grupo de rapazes bem parecidos, no Bairro Alto, que lhes fez uma pergunta: "Morte, violação ou boca de palhaço?" As jovens, pensando tratar-se de uma brincadeira de Carnaval, responderam prontamente "boca de palhaço". Foram esfaqueadas dos lábios às orelhas. Sei que ainda hoje estão traumatizadas e que nenhuma cirurgia plástica deixá-las-á como eram antes. No passado fim de semana, voltou a acontecer; em pleno Largo Camões, a jovem esperava por um táxi vazio que a levasse para casa. Pois quem a levou foi quatro rapazes, que lhe fizeram a mesma pergunta arrepiante e o resultado é o mesmo. Esfaqueada, com um "sorriso" de palhaço. Acho estranho que nenhum telejornal faça referência a isto, porque tenho a certeza de que já aconteceu mais vezes. Sendo assim, e como acredito no poder do passa a palavra, por favor divulguem ...