À meia-noite, quando a casa dormia como pedra antiga aquecida pelo tempo, Leo ouviu um tilintar na janela. Espreitou e ficou sem palavras: um pequeno comboio feito de luz e memória deslizava no ar, como se o céu tivesse aprendido a andar sobre carris invisíveis, deixando um rasto de luz que parecia respirar.
Na frente, uma placa brilhava: Expresso dos Brinquedos Luminosos — Viagem aos Corações Esquecidos.
A porta abriu-se
sozinha. Tobias, o ursinho, agora vivo e de olhar sério, observou-o:
— Nem todos conseguem entrar, só quem ainda sabe lembrar com o coração
desperto.
Leo hesitou. O chão lá dentro parecia feito de ecos. Mesmo assim, entrou.
O comboio seguia cheio de vida: bonecos murmuravam segredos, carrinhos riam em corridas sem destino e livros folheavam-se como quem procura o próprio nome. Mas havia um silêncio estranho à frente deles.
O Armazém das Coisas Esquecidas era frio e cheirava a madeira parada, como se o tempo ali tivesse deixado de respirar. Lá dentro, brinquedos apagados esperavam sem esperança. Um soldadinho de lata não levantava os olhos. Uma bola antiga nem tentava saltar.
Leo aproximou-se devagar, com a delicadeza de quem toca numa memória ferida, mas nada aconteceu. Tobias baixou o olhar:
— Lembrar é só o começo. O resto é querer que a luz volte.
Leo respirou fundo, limpou o pó com cuidado e disse o nome do soldadinho como quem chama alguém perdido. Sussurrou coragem, uma vez, outra, até a voz ganhar calor.
O metal brilhou. A bola hesitou… e depois saltou como se tivesse voltado a nascer.
Na viagem de regresso, o silêncio já não pesava.
De manhã, Leo encontrou uma pena dourada no bolso. Só brilhava quando algo importante era esquecido. E, por isso, ele passou a escutar a noite como segredo antigo que ainda não terminou de ser contado.
Lançamento do Livro na Feira do Livro no Porto.

Comentários