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Correspondência no Escuro

 

Na zona antiga da cidade, onde as paredes acumulavam sal e memórias que já ninguém sabia nomear, existia uma associação discreta instalada num piso alto. As janelas estreitas deixavam entrar uma luz filtrada, que parecia ter atravessado demasiados invernos. O interior cheirava a papel envelhecido, madeira encerada e chá leve. Ali não se falava alto. Tudo existia com a paciência de quem sabe que certas coisas só duram quando não são apressadas.

Uma vez por ano reunia-se um pequeno grupo de pessoas vindas de geografias diferentes para um exercício pouco comum: escrever a alguém desconhecido.

Chamavam-lhe "Amigo Secreto".

A regra era antiga na sua simplicidade. Cada participante recebia um nome ao acaso, retirado de um envelope creme, dobrado da mesma forma que todos os outros. Durante três meses, escreviam-se cartas semanais. Sem assinatura. Sem pistas evidentes. Apenas linguagem entregue a um desconhecido.

O compromisso era a regularidade.

O resto pertencia ao escuro.

Nesse ano entrou Duarte Azevedo, professor reformado de História. Homem habituado a organizar o tempo como se fosse uma estante. Falava em causas e consequências, em linhas cronológicas, em acontecimentos que encaixavam uns nos outros com a precisão de um mecanismo antigo. As frases eram longas. As vírgulas surgiam para sustentar o pensamento antes de este avançar para a conclusão seguinte.

Entrou também Aiko Tanaka, tradutora japonesa que vivia em Lisboa há vários anos. Trabalhava com línguas há tempo suficiente para saber que certas palavras nunca atravessam intactas uma fronteira. Preferia observar antes de interpretar. E, muitas vezes, deixava as coisas sem interpretação alguma.

O sorteio realizou-se numa tarde de outono.

A sala permaneceu quase silenciosa, interrompida apenas pelo ruído do papel a ser dobrado e pelo toque breve dos dedos nos envelopes.

Duarte recebeu um nome.

Aiko recebeu outro.

Lá fora, os elétricos continuavam a subir e a descer as colinas da cidade. O seu movimento repetido marcava um ritmo invisível, indiferente ao que acabara de acontecer naquela sala.

A primeira carta chegou numa manhã de luz húmida.

"Escrevo a alguém que não vejo. Há uma estranheza nisto, mas não desconforto. Apenas intervalo. A vida, muitas vezes, precisa de um intervalo."

Duarte leu-a de pé.

Não era uma carta extraordinária. Ainda assim, interrompeu qualquer coisa dentro do dia. Guardou-a. Voltou a lê-la nessa noite. Depois outra vez, na manhã seguinte.

Respondeu dois dias depois.

"Recebo a tua escrita como quem encontra um documento sem classificação. Não sei onde o arquivar. Talvez existam coisas que não pertençam a nenhum sistema, e isso já é uma forma de inquietação."

Quando a resposta chegou a Aiko, ela deixou-a várias horas sobre a mesa antes de a abrir.

Leu-a uma vez.

Depois abriu a janela.

Só então voltou ao papel.

A correspondência prosseguiu.

Durante as primeiras semanas mantiveram uma distância educada. Falavam do tempo, das ruas da cidade, de livros lidos há muitos anos e de objectos que permaneciam nas casas depois de perderem utilidade.

Mas pouco a pouco as cartas começaram a deslocar-se para territórios menos seguros.

Numa semana não chegou nada.

Duarte percebeu a ausência logo na segunda-feira.

Na terça verificou a caixa do correio duas vezes.

Na quarta disse a si próprio que aquilo era absurdo.

Na quinta escreveu uma carta na mesma.

Quando a resposta chegou, o papel trazia vincos menos precisos.

"Desculpa o atraso. Há momentos em que escrever não é possível. Não por falta de vontade. O dia avançou e eu fiquei para trás."

Duarte releu essa frase várias vezes.

Tentou colocá-la junto das restantes cartas.

Mudou-a de lugar três vezes.

No fim deixou-a sobre a secretária.

Não perguntou nada.

Mas guardou a frase na memória.

A partir daí os intervalos deixaram de ser acidente e passaram a fazer parte da correspondência.

Aiko escrevia menos.

As cartas tornaram-se mais curtas.

"Hoje o rio está mais escuro. Não sei porquê."

Duarte respondeu:

"Talvez o rio não mude apenas de cor. Há dias em que parece trazer mais passado."

Na semana seguinte, Aiko escreveu:

"Há coisas que não precisam de explicação para existirem."

Duarte sorriu ao ler. Respondeu quase de imediato.

"Talvez. Mas aquilo que recusamos compreender acaba muitas vezes por governar-nos."

A resposta demorou. Quando chegou continha apenas duas linhas.

"Nem tudo o que nos governa deseja ser compreendido.

Há árvores que crescem sem conhecer o nome da floresta."

Duarte franziu o sobrolho. Sentiu uma irritação inesperada.

Pareceu-lhe uma evasão elegante. Uma forma de fugir à questão.

Durante alguns minutos teve vontade de responder com argumentos. Explicar. Contradizer.

Não o fez.

Dobrou a carta.

Foi a primeira vez que deixou uma delas por reler.

Dias depois percebeu que continuava a pensar nela.

A irritação tinha desaparecido.

A pergunta permanecera.

Sem o dizerem, começaram a reconhecer-se nas diferenças.

Ela habitava aquilo que não precisava de conclusão.

Ele procurava sempre uma.

Num dos meses intermédios, Aiko enviou a carta mais curta de todas.

"Há pessoas que não partem. Apenas deixam de ocupar o mesmo lugar dentro do mundo."

Duarte ficou muito tempo sentado diante daquela frase.

Pegou numa folha.

Escreveu três páginas. Falou da mulher. Falou da doença. Falou dos anos em que continuara a pôr dois pratos na mesa sem pensar. Quando terminou, releu tudo.

Depois rasgou as páginas.

A carta enviada continha apenas uma palavra.

"Compreendo."

Ao colocá-la no correio, sentiu que tinha dito mais do que em qualquer carta anterior.

A correspondência aproximava-se do fim.

Duarte possuía uma caixa de madeira antiga destinada a documentos sem categoria definida. Começou a guardar ali as cartas. Não as organizava. Não lhes atribuía datas.

A desordem daquela caixa tornou-se uma excepção silenciosa dentro da casa.

Talvez a única.

O último encontro foi marcado para um miradouro sobre o rio.

A cidade encontrava-se sob um céu baixo e uniforme. O outono fazia o seu trabalho antigo de retirar excesso às coisas.

Duarte chegou primeiro. Trazia a caixa consigo. Sentou-se num banco e observou a água. Não tentou imaginar quem iria encontrar. Já não tinha interesse em adivinhar.

Aiko apareceu alguns minutos depois. Reconheceram-se imediatamente. Não porque soubessem o rosto um do outro. Mas porque nenhum deles pareceu procurar mais ninguém. Ficaram lado a lado.

O rio seguia abaixo, indiferente.

Durante algum tempo não falaram.

Depois Duarte disse:

— Escreveste-me durante três meses.

— Sim.

— Pensei em desistir.

Aiko sorriu.

— Eu também.

A simplicidade daquela coincidência produziu mais proximidade do que qualquer revelação.

Passados alguns instantes, ela retirou um envelope creme do bolso do casaco. Entregou-o.

Duarte abriu. Dentro havia apenas uma frase.

"Durante algum tempo pensei que estava a desaparecer. Depois comecei a esperar pelas tuas cartas."

Ele leu devagar.

Não encontrou nenhuma tentativa de efeito.

Talvez por isso as palavras o atingiram com tanta força.

Dobrou o papel.

— Não sei quem és — disse.

Aiko olhou para o rio.

— Eu também não sei exatamente quem fui para ti.

O vento atravessou o miradouro.

A carta moveu-se ligeiramente sobre o banco.

Duarte estendeu a mão para a segurar. Parou a meio do gesto. Observou-a deslizar alguns centímetros.

Pela primeira vez deixou uma coisa importante seguir sem a guardar. A folha acabou presa junto à grade. Nenhum deles a foi buscar.

Duarte colocou a caixa de madeira entre ambos.

— Guardei tudo.

Aiko observou a caixa durante alguns segundos.

Passou os dedos pela tampa, sem a levantar.

— Não é preciso abrir.

Ele assentiu. Compreendeu. Algumas coisas existiam melhor sem inventário.

Levantaram-se pouco depois. Desceram por ruas diferentes.

Não houve promessa de novo encontro. Não trocaram contactos.

A cidade recebeu-os de volta com o ruído distante dos elétricos e o movimento habitual das pessoas que regressavam a casa. Atrás deles, o rio continuou o seu caminho.

Sem os incluir. Sem os esquecer.


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