O quarto estava mergulhado em silêncio, excepto pelo sussurro delicado da agulha a deslizar entre os fios. Helena tecia. Sempre tecera. Desde que se lembrava, os dedos seguiam os caminhos do novelo, transformando o caos em forma, alinhava destinos na grande tapeçaria do tempo.
Mas agora, restava-lhe apenas um fio. O último.
À sua volta, tapeçarias pendiam das paredes de pedra. Algumas vibravam suavemente, vivas com a respiração daqueles cujas histórias ainda se desenrolavam. Outras estavam frias, os rostos nelas bordados congelados para sempre no esquecimento. Era assim que funcionava. Era assim que sempre funcionara.
Helena passou os dedos sobre o fio derradeiro. Estava gasto, fino como um sussurro. A cada laçada, um rosto surgia no tecido, uma menina de olhos cor de mel, um jovem que amava as estrelas, uma mulher que sussurrava segredos ao vento. Pessoas cujos destinos, ela entrelaçara sem nunca lhes tocar a pele.
Mas o novelo afunilava-se entre os seus dedos, a linha escorrendo como areia. O tempo, que sempre se movera ao seu redor sem a alcançar, agora pesava nos seus ombros curvados.
Ela sabia o que aquilo significava.
A sala parecia prender a respiração. O ar pulsava à sua volta, expectante. O tear rangeu suavemente quando ela passou a agulha pela última vez. Fechou os olhos. Inspirou devagar.
No instante final, hesitou. Olhou para a tapeçaria à sua frente. Viu-se entrelaçada nela, um fio quase invisível, discreto entre tantos outros. Um nó que sempre evitara reconhecer.
Um nó que agora precisava desatar.
Com dedos trémulos, puxou a ponta solta.
O fio cedeu. O tear parou.
As velas estremeceram, lançando sombras dançantes nas paredes. O silêncio adensou-se, profundo como um abismo.
E, no fim da linha, Helena desapareceu gradualmente, como se desfizesse no ar, tornando-se oculta.
Sentavas-te no alto, como quem vigiava um reino que só tu conhecias. A janela era o teu posto. O sofá, o teu trono. E aquele olhar meio fechado, entre sério e desconfiado, era a tua maneira de dizer: "Está tudo em ordem. Eu estou a tomar conta." Nunca foste o gato que pedia colo nem mimos. Nem o que seguia cada passo nosso. Eras feito de vontade própria, de aventuras inesperadas, de arranhadelas, de resmungos e de uma personalidade impossível de esquecer. Houve dias em que nos fizeste rir. Outros em que nos pregaste partidas. E muitos em que fingias que não precisavas de ninguém. Mas precisavas. E nós também. A vida foi deixando marcas no teu corpo. Mazelas que nunca escolheste. Batalhas silenciosas que foste enfrentando sem nunca perderes aquilo que fazia de ti... um Ginger Lince. O teu resmungo. Que tantas vezes nos fazia sorrir e que hoje daríamos tudo para voltar a ouvir. Lutaste o tempo que conseguiste.Nós lutámos contigo. Fomos contigo ao veterinár...

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