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Paisagem

Cheguei à clínica, às 21:30, com o misto de receio, ansiedade e cansaço. Olhei para a porta e para o relógio e fiquei uns segundos em suspense.

Não havia campainha, bati a porta enquanto apanhava o telemóvel para ligar, entretanto chegou uma senhora. Apresentou-se e mostrou-me o quarto aonde iria passar a noite. Disse-me para vestir como se fosse dormir. Vinha daqui a vinte minutos, para a monitorização.

Olhei para o quarto com WC, uma mesa de escritório, uma cama e uma televisão e um lindo quadro, no lugar da janela. Sentei-me à frente, fiquei a apreciar os montes do Gerês.  

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Sentavas-te no alto, como quem vigiava um reino que só tu conhecias. A janela era o teu posto. O sofá, o teu trono. E aquele olhar meio fechado, entre sério e desconfiado, era a tua maneira de dizer: "Está tudo em ordem. Eu estou a tomar conta." Nunca foste o gato que pedia colo nem mimos. Nem o que seguia cada passo nosso. Eras feito de vontade própria, de aventuras inesperadas, de arranhadelas, de resmungos e de uma personalidade impossível de esquecer. Houve dias em que nos fizeste rir. Outros em que nos pregaste partidas. E muitos em que fingias que não precisavas de ninguém. Mas precisavas. E nós também. A vida foi deixando marcas no teu corpo. Mazelas que nunca escolheste. Batalhas silenciosas que foste enfrentando sem nunca perderes aquilo que fazia de ti... um Ginger Lince. O teu resmungo. Que tantas vezes nos fazia sorrir e que hoje daríamos tudo para voltar a ouvir. Lutaste o tempo que conseguiste.Nós lutámos contigo. Fomos contigo ao veterinár...