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Cirque du Soleil: VAREKAI


Lisboa, 14 Mai (Lusa) - Era uma vez uma lagarta e um anjo que se apaixonam num vulcão e querem ser felizes para sempre. Mas há também aranhas vilãs nesta história, que será contada a partir de sexta-feira pelo Cirque du Soleil, em Lisboa.

E uma dessas 'más' fala português. Michele Ramos é brasileira, 34 anos, e fora dos palcos apaixonou-se por um português e, tal como no espectáculo de circo "Varekai", quis ficar com ele.

Neste caso de amor, a ameaça era uma digressão pela Austrália, mas tudo acabou bem: ele trocou a Força Aérea francesa pelo circo e hoje em dia é o responsável pela manutenção do palco e o único português na companhia.

Passam agora cinco anos sobre o primeiro beijo à beira Tejo. "E agora volto para trabalhar no mesmo sítio", diz a trapezista, de sorriso fácil.

Michele contabiliza 14 anos como artista de circo, nove dos quais no país natal, um em Portugal e quatro com a companhia canadiana do Cirque do Soleil, que junta acrobacias, malabarismos, música e dança.

Foram cinco anos à espera de realizar o sonho de se juntar ao "circo inovador". Uma audição, entrar na base de dados e esperar que a chamassem foi o início da sua realidade, que começou a ser ansiada quando viu uma gravação em VHS, por volta de 1994.

"Foi duro no início quando cheguei porque não falava nada de inglês", a língua universal do Cirque du Soleil. A mímica e algum francês que falava permitiram, porém, "quebrar o galho".

Conhecer o mundo, ter gravações diárias dos espectáculos para poder melhorar e trabalhar sem animais são muitos dos atractivos que encantam Michele.

E se tivesse filhos também podia contar com os três professores, que ensinam, por exemplo, os três meninos chineses que acompanham em palco o malabarista mexicano Octávio Alegria.

A dois dias da estreia, o malabarista e os pequenos artistas vão ensaiando no palco principal ainda sem os seus fatos coloridos, que continuam pendurados nos cabides ou na mesa de trabalho da costureira canadiana Genoveve.

Há sete anos, que começou a fazer fatos para a companhia na sua sede, em Montreal, mas aproveitou a oportunidade para fazer a digressão.

À pergunta quantas vezes já viu o espectáculo "Varekai", responde com uma gargalha e um "meu Deus, deixei de contar".

"Mas mesmo quando vejo hoje em dia fico com pele de galinha. Sei que vi pelo menos umas 500 vezes", acaba por confessar.

A dar apoio a jornalistas e a lembrar os artistas das horas de treino está Chantal Blanchard, que sempre trabalhou nos bastidores do mundo do espectáculo e garante que se pisasse o palco era "um desastre".

De trabalho no Cirque du Soleil conta já com 11 anos e acompanha o espectáculo que está em Lisboa desde o início, em 2002.

Viver em comunidade e a ouvir várias línguas fá-la feliz e já guarda memórias de imprevistos do palco ou de erros de tradução. Numa entrevista, uma jornalista queria saber mais sobre a meditação de acrobatas chineses, mas a pergunta que acabou por ser feita foi sobre medicação.

O seu trabalho é o "ideal" até porque um dos objectivos era "ver o mundo com os outros a pagar". "E tem funcionado muito bem para mim", diz, bem-humorada.

Andar com a casa 'às costas' é uma "faca de dois gumes", acrescenta a trapezista Michele. Ela conhece o mundo com o circo, o que seria impossível "num trabalho fixo", mas às vezes sente vontade de comprar coisas para a sua casa e fixar-se de uma vez por todas.

"Mas acho que não conseguia ficar muito tempo parada", afirma a brasileira, acrescentando que vê o futuro ligado ao meio circense, até porque já dá aulas.

O final da história de Michele está em aberto, mas a da lagarta e do anjo pode ser conhecida entre sexta-feira e 07 de Junho.

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