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Mensagens

Mistério no Mar (88 palavras)

De madrugada, o mar respirava pesado nas rochas quando encontrei um ovo perdido na areia fria. Aproximei-me com uma lupa, detetive improvisado. Subitamente a água abriu caminho e surgiu um elefante encharcado, tromba erguida como estandarte absurdo. Olhou para mim, depois para a pequena relíquia pálida. Espirrou. O jato arrastou a casca para longe, rodopiando sobre a superfície. Ficámos imóveis. Por fim o gigante mergulhou com solenidade ferida, deixando-me a rir sozinho, sal nos lábios, certo de que o mar adora partidas e guarda gargalhadas antigas nas marés.

Mar de Fundo

Durante anos, o trabalho de Daniel foi simples: entregar material de proteção. Luvas, capacetes, coletes refletores, máscaras que prometiam segurança a quem ainda acreditava nela. Caixas empilhadas no armazém, listas para assinar, percursos repetidos até à exaustão. Quando o espaço ficava vazio ao fim da tarde, o som dos próprios passos ecoava-lhe nos ouvidos. À noite, recorria à bebida para apagar ruídos antigos, não acontecimentos concretos, mas discussões suspensas, frases que nunca chegara a dizer ao pai. A família mantinha uma distância cautelosa. A mãe ligava aos domingos, escolhendo as palavras como quem pisa terreno instável. O pai falava-lhe pouco, num tom neutro que não admitia réplicas. Daniel lembrava-se bem de um dia, anos antes, em que o pai lhe dissera, à mesa, sem levantar a voz: «Há pessoas que não servem para mais.» Nunca soubera se a frase lhe fora dirigida ou se o pai falava de si próprio. Ficara ali, a ocupar espaço. Reencontrou Inês por acaso, num restaurante ...

O Rosto da Manhã

Desafio: E se amanhã acordasse com o rosto diferente? Acordei antes do despertador. Ainda era cedo; a luz entrava pelas separações da persiana como um sussurro antigo, tímido, quase respeitoso. Havia qualquer coisa fora do lugar, não no quarto, não nos móveis, mas no ar. Um silêncio espesso, como se a casa estivesse à espera de mim. Levantei-me. O chão estava frio. Caminhei até à casa de banho ainda meio adormecido, preso à rotina como quem se agarra a uma corda no escuro. Abri a torneira. A água correu. Levei as mãos ao rosto. Um gesto simples. De todos os dias. Levantei os olhos. Parei. Não. Afastei-me do espelho de repente, como se tivesse visto algo que não devia. O coração acelerou, seco, irregular. Voltei a olhar, devagar, quase contra a minha própria vontade. O homem no espelho não era eu. Respirei fundo. O ar parecia mais pesado. Aproximei-me. Inclinei a cabeça. Ele fez o mesmo. Passei os dedos pela face, a pele respondeu, mas não era a minha. Havia uma cica...

Fazer anos

Fazer anos é ganhar tempo dentro da alma. É aprender a olhar melhor as pessoas, a entender um pouco mais os silêncios do coração e os mistérios simples da vida. É descobrir que vale mais construir do que destruir, amar mais do que odiar, e viver o agora, porque é nele que a vida realmente acontece. Fazer anos é ver flores no caminho e escolher não pisá-las. É tornar-se mais paciente, mais generoso com o mundo e mais humilde consigo mesmo. É fechar ciclos antigos e abrir portas para novas experiências. É perceber que poucos amigos verdadeiros valem mais do que multidões. Hoje, dia 13, sexta-feira, um dia especial na minha vida, agradeço. Agradeço pela vida que tenho, pela família, pelos amigos que vivem no meu coração e pelos anjinhos que sempre me acompanham. Que hoje se acenda mais uma pequena luz no caminho de mais um ano de vida. Com paz, gratidão e felicidade.

A Herança das Mulheres

Hoje, as mulheres caminham com os pulsos livres. Nem sempre foi assim. O celular vibra na palma, o autocarro passa sem esperar, o dia corre antes de nós. Mas há ecos que chegam de longe, de corpos que antes suportavam tudo em silêncio, de mãos calejadas de sabão e frio, de ombros curvados pelo peso que nunca se dizia, de vozes caladas. As avós, as bisavós, as mulheres que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, conheciam outra medida do tempo. O corpo era território de comando alheio: tarefas sem fim, filhos para cuidar, trabalho sem contrato, silêncio imposto. O cansaço não era desculpa; era lei. Aprendiam cedo que obedecer era sobreviver, que sorrir era negociar dignidade. Cada gesto de resistência era mínimo: um olhar que durava, um passo que se recusava a dobrar-se, uma mão que segurava outra em segredo. Pequenos atos que, somados, criaram história. Ainda sentimos a herança no corpo. No trabalho, microagressões atravessam o dia. Elogios que escondem exigência...

Puzzle - a peça do desafio das letras

A antiga peça apareceu sobre a mesa numa madrugada imóvel, como se tivesse sido deixada por mãos que recusavam ser lembradas.  Era redonda, do tamanho exato de uma moeda grande, discreta demais para dominar o tabuleiro, mas impossível de ignorar.  A superfície mostrava um vermelho desbotado, atravessado por uma linha dourada que não conduzia a lado nenhum. Ao toque, era fria, feita de cartão espesso, com as bordas gastas como se tivesse viajado por lugares que ninguém ousaria nomear. Em redor, quase completo revelava um céu estranho, um sol pálido, uma lua vigilante e sombras que lembravam criaturas antigas.  No centro, porém, permanecia o vazio reservado àquela peça circular, deslocada de todas as outras, como se tivesse sido criada para um enigma diferente.   Cada tentativa de encaixe falhava antes mesmo de começar.  A peça rodava, recusava, parecia antecipar o erro das mãos que a guiavam. Havia nela uma resistência silenciosa, uma recusa que não era físi...

Agarrar o sonho

 

Um obrigada a quem proporcionou uma noite maravilhosa

A Lapa não é para todos.  Casas antigas, de outro tempo, onde o pé-direito alto obriga a levantar o olhar e a baixar o tom. Sancas desenhadas à mão, portas pesadas, janelas de madeira que já viram décadas. Paredes cheias, não minimalistas, mas vividas. Quadros, pinturas, bonecos herdados, fotografias a preto e branco, pratos decorativos, livros gastos, CDs arrumados como quem ainda acredita no objeto. Tapetes de Arraiolos no chão. E, como centro moral da sala, um piano de cauda. Ali não há pressa. Há história. Jantar demorado, comida feita com intenção pelas mãos do filho, nada de invenções vazias, tudo delicioso. Conversa limpa, olhos atentos, gente que sabe estar. Encanto não se compra, constrói-se assim, camada sobre camada. E depois, silêncio. Francisco Sassetti (famoso pianista), ao piano com duas músicas e “Amélie”. As primeiras notas, delicadas, mas firmes. Não é música para impressionar, é música para tocar onde dói e onde cura. O piano respira. A sala encolhe...

Duplicada

Desafio da FDT - Partilhas:              Clara entrou no laboratório. O ar parecia sólido, mas quente demais, grudando na pele. À frente, cápsulas alinhadas, cada uma com uma versão dela, imóveis, perfeitas demais. Um sussurro atravessou a sala. Não vinha de lugar algum. Era sua própria voz, mas dizendo coisas que ela nunca pensara, lembranças que não eram suas. Ela piscou. Uma das cópias piscou meio segundo antes dela. O chão tremia, ou seria sua cabeça? Passos ecoaram, mas nenhum som chegou aos ouvidos. Tocou o vidro da última cápsula. Uma mão fria agarrou seu ombro. Virou-se. Não era uma presença, eram muitas. Olhos imóveis, atentos, pesando cada gesto, aguardando o instante exato. Os pensamentos estilhaçaram-se, dispersos como cinza ao vento. Quem delas sou? Quem vai permanecer? O riso dela, mas não dela, percorreu o ar. Na escuridão crescente, a primeira réplica falou, lenta: “Você sempre foi a última a perceber.” 

O que está dentro da gaveta?

A gaveta estava ali havia anos. Imóvel. Fechada. Silenciosa como um funcionário público às 16h59. Pertencia à cómoda da sala, aquela que a minha mãe dizia ser “de boa qualidade”, expressão que no nosso país significa apenas que pesa o suficiente para não ser roubada. Ninguém abria a terceira gaveta. A primeira tinha toalhas. A segunda, documentos importantes e três carregadores de telemóvel que não pertenciam a aparelho algum. Mas a terceira… era território proibido. Sempre que alguém perguntava “O que está na gaveta?”, a resposta vinha seca: “Depois vês.” Cresci com esse “depois vês” a ecoar na cabeça como um feitiço doméstico. Podia significar tudo, desde “há um tesouro” até “há contas por pagar”. A imaginação fazia o resto: mapas do tesouro, cartas de amor capazes de destruir casamentos, talvez o mítico ouro que o tio Patinhas jurava ter visto, mas que ninguém confirmou. Um domingo, depois do almoço, altura sagrada em que todos dormem a sesta e até o relógio pa...