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4 de março de 2025

O Último Manuscrito

Dinâmicas luz das letras: 300 palavras, meta literatura, de um livro que li Quando Lisboa tremeu de Domingos Amaral:

A tinta escorria lenta sobre o papel, enquanto Sebastião traçava palavras febris. A pena tremia nos dedos, mas não pelo esforço. Era Lisboa que estremecia debaixo dos seus pés.

O candeeiro balançava. Lá fora, gritos cortavam a noite. Prédios cederam num estrondo de pedra e madeira. A cidade afundava-se em poeira e cinza, mas Sebastião não largava a pena.

A história precisava ser escrita.

As linhas corriam, desesperadas. O terramoto devorava a cidade, tal como as suas palavras devoravam o tempo. Ele escrevia sobre homens e mulheres que fugiam entre as ruínas, sobre um padre que rezava diante de um altar desabado, sobre uma mulher que, de joelhos, procurava o filho perdido. Mas, à medida que a pena riscava o papel, os ecos da realidade transformavam-se.

A mulher encontrava o filho nos escombros, são e salvo. O padre erguia-se entre as chamas, guiando os fiéis para fora da igreja. Alguns edifícios, que há instantes ruíam, mantinham-se intactos, como se a narrativa os sustentasse.

Sebastião sentiu o coração acelerar. As suas palavras moldavam Lisboa.

Inspirou fundo. Um último parágrafo.

No instante em que escreveu que a terra serenava e que a cidade renasceria das cinzas, o chão parou de tremer. O silêncio invadiu o quarto. Apenas o crepitar distante dos incêndios lembrava o desastre.

Sebastião pousou a pena, as mãos suadas. O papel, agora completo, pulsava sob a luz do candeeiro. Olhou pela janela: a Lisboa destruída ainda respirava.

Dobrou o manuscrito com dedos hesitantes e murmurou:

— Nem todas as histórias podem ser mudadas… mas algumas, talvez.

Lá fora, a cidade ferida esperava.

2 de março de 2025

Dois em Um

Mateus acordou com um gosto metálico na boca. O cheiro a ferrugem e suor impregnava-lhe a pele.

— Bom dia. — A voz veio de dentro.

O coração de Mateus acelerou.

— Não outra vez…

— Outra vez? — A risada ecoou na sua cabeça. — Meu caro, nós somos isto.

O espelho ao lado da cama reflectiu um rosto familiar. Mas os olhos não eram seus. O direito brilhava num castanho comum, mas o esquerdo… negro como breu. Um sorriso rasgou-lhe os lábios sem o permitir.

— O que fizeste? — Mateus segurou a própria cabeça, os dedos cravando-se na pele.

— Salvei-te do tédio. — A voz dentro dele soava satisfeita.

A náusea subiu-lhe à garganta. Sentia o corpo pesado, exausto, como se tivesse corrido durante horas. Levantou-se, cambaleante. O cheiro de sangue enchia o ar. Os dedos moveram-se sem permissão, alisando a camisa manchada.

— Fica calmo — disse a voz. — Desta vez fui cuidadoso.

Mateus tropeçou até à porta. A maçaneta estava pegajosa. O chão, molhado. Um passo, outro. Luz fria da cozinha. O corpo no chão. Engoliu um soluço. A mulher de olhos vazios fitava o tecto. O corte no pescoço ainda gotejava.

— Não… — A palavra saiu-lhe num sussurro.

— Sim — corrigiu a voz, satisfeita. — E foi tão fácil.

O ar ficou espesso. O corpo dele tremeu. Os músculos enriqueceram. Tentou recuar, mas as pernas não lhe obedeciam.

— Não resistas — a voz sussurrou-lhe ao ouvido, embora viesse de dentro. — Eu faço o que tu não tens coragem.

A mão direita ergueu-se e apontou para o próprio peito.

— Agora… dorme.

Mateus gritou. Mas ninguém ouviu.

1 de março de 2025

Noventa Invernos, Noventa Primaveras


Noventa voltas sob o sol ardente,

Noventa outonos de folhas no chão,

Em tempo foste raiz e semente,

Tornaste a vida em revolução.

 

Ergueram-se muros, caíram impérios,

O mundo girou sem nunca esperar,

Mas foste rocha, firme e sincero,

Homem que ensina só por estar.

 

Tua voz guarda ecos antigos,

Histórias que o tempo não faz esquecer,

E cada ruga são livros de abrigo,

Que o vento insiste em querer ler.

 

Já viste amores partirem ao longe,

Já viste o sonho mudar de cor,

Mas tua essência jamais se esconde,

És lume eterno, és puro ardor.

 

Hoje, os teus passos é brisa mansa,

Mas dentro do peito, bate um trovão,

Pois quem viveu sem perder a esperança

Nunca se curva ao peso da mão.

 

Brindemos, pois, ao tempo vivido,

À tua jornada, ao teu caminhar,

Que a vida ainda guarde contigo

Mais primaveras para contar.


Em homenagem a um primo querido que fez 90 anos com saúde e jovialidade. Foi lida na véspera, num jantar de poesia no hotel vila galé.

28 de fevereiro de 2025

Um jantar há luz das velas com poesia falada, nas paredes...





 

36 palavras num dia de chuva

A chuva desenha rios nas janelas.
Lá fora, passos apressados, guarda-chuvas virados, ruas brilhantes de reflexos.
Cá dentro, chá quente, um livro aberto, silêncios bons.
Há dias que pedem correria.
Hoje, o mundo escorre devagar.

#36Palavras #laritacaramela

25 de fevereiro de 2025

O Dia do Rei - Alcácer do Sal, outono de 1158


O vento quente que soprava do sul trazia o cheiro a especiarias e mar, mas no campo português, o ar sabia apenas a ferro e suor. O acampamento estendia-se como um animal agachado, feito de tendas, lanças e cavalos impacientes. Um crepúsculo tingia o céu de púrpura e ouro, refletindo-se nos elmos e nas cotas de malha dos homens que afiavam espadas e rezavam em voz baixa.

Afonso Henriques observava-os em silêncio. Desde a alvorada que sentia aquela inquietação no peito, não de medo, porque o receio era um luxo de homens fracos, mas algo mais profundo, um pressentimento de que aquela noite ficaria gravada na pedra da história.

Virou-se para Pedro Pais da Maia, que surgira à entrada da tenda, o rosto endurecido pelo cansaço e pela expectativa.

— O que dizem os batedores?

Pedro hesitou um instante, depois deu um passo à frente.

— Os mouros esperam um cerco longo. Têm mantimentos para meses e reforçaram os portões com ferro. Há patrulhas a cada duas horas e os caldeirões de azeite já estão nas torres.

Afonso Henriques não desviou o olhar do seu capitão.

— E a sul?

— Muro alto, mas menos guardado. Se atacarmos a norte, como eles esperam, podemos escalar por ali.

O rei fechou os punhos. Sentia o peso das batalhas passadas nos ossos, mas a mente permanecia afiada como a lâmina da sua espada. Não podia recuar nem hesitar. Alcácer do Sal era um espinho cravado na carne do seu reino e arrancá-lo significava abrir caminho para o futuro.

— Fingimos um assalto ao portão norte. Usamos isso para atrair as forças deles. Mas os nossos melhores homens escalam os muros a sul. Antes do nascer do sol, Alcácer do Sal será nossa.

Pedro Pais assentiu. Não havia nada mais a dizer.

Afonso Henriques permaneceu de pé, fitando a cidade. As muralhas erguiam-se contra o céu escuro, desafiadoras. Os seus dedos percorreram o cabo da espada, sentindo a textura familiar do punho de couro.

— Que Deus nos guie — murmurou.  ….. Até 1000 palavras.

19 de fevereiro de 2025

Silêncio Sangrento


Dinâmicas: Tema: Erro até 100 palavras

A faca escorregou-lhe das mãos. O som metálico contra o azulejo rasgou o silêncio. O sangue, quente, espalhava-se pelo chão. João recuou, os olhos presos na ferida aberta no peito de Miguel.

Não era suposto. Era apenas uma discussão. Um impulso.

Miguel engasgou-se ao tentar falar. A boca tremia, os olhos suplicavam. João caiu de joelhos, pressionando a ferida, mas o sangue fugia-lhe pelos dedos.

— Aguenta… por favor…

O aperto na mão de João afrouxou e o olhar de Miguel perdeu-se no vazio.

O grito ficou preso na garganta e o erro, viveria para sempre.

16 de fevereiro de 2025

Asas na noite


O vento deslizava entre as copas das árvores, murmurando segredos indecentes à noite cúmplice. A escuridão envolvia tudo, espessa e convidativa, um véu onde os sentidos eram despertados à flor da pele. Clara avançava pela estrada deserta, com o corpo vibrando dum desejo febril e inquieto.
Sentiu primeiro o silêncio. Não uma ausência banal, mas um convite suspenso, uma promessa. Depois, veio o som, um bater de asas profundo, ritmado, como se a própria noite respirasse ao seu redor. 
Ela parou, de olhos arregalados e peito arfante. Olhou para cima. Nada, apenas o céu aveludado, escuro.
Um arrepio percorreu-lhe a espinha, um choque eléctrico que incendiou cada célula do corpo. Continuou a andar, cada passo mais lento, como se a dança da noite exigisse rendição. O som regressou, mais próximo e íntimo. O bater de asas envolvia-a como um sussurro ao ouvido, um toque sem contacto, uma carícia ardente sem forma.
Clara mordeu o lábio, tentando conter o gemido. O ar pulsava ao seu redor, promessa de luxúria e perdição. A respiração tornou-se densa, carregada de um calor insuportável. 
Algo pairava sobre si. Sentimento duma presença faminta, um desejo maior que a própria escuridão. O ar tornou-se espesso, impregnado de um perfume inebriante, quente e hipnótico.
 O som das asas cessou e o silêncio tornou-se expectante, vibrante. Clara parou. Algo roçou na sua pele, quente, firme, dotado de uma força que não pedia permissão, apenas tomava. O gemido escapou-lhe antes que pudesse contê-lo. Garras deslizaram pela sua pele febril, marcando-a. 
 A aldeia ficou para trás e um punhado de luzes trémulas. O céu acolheu-a com uma fome insaciável.
 Então, a doçura rompeu-se. O toque macio tornou-se áspero, cruel. O perfume deu lugar ao cheiro ferroso da morte. Clara tentou gritar, mas os dedos impossivelmente longos cerraram-se à garganta. O êxtase tornou-se tormento. Tentou lutar, mas já era tarde. O céu, antes refúgio, era agora um túmulo.
 Na manhã seguinte, apenas um lenço amarrotado jazia na estrada poeirenta, manchado de algo mais do que desejo. E ao cair da noite, o vento trouxe consigo o eco distante de asas que prometiam sempre mais.

14 de fevereiro de 2025

Meu Amor, Minha Essência

No silêncio da noite, penso em ti,
És a luz que ilumina o meu existir.
O teu sorriso é sol, doce e subtil,
O teu abraço, o refúgio que me faz sorrir.

Desde o instante em que te encontrei,
O meu mundo ganhou nova direção.
Nos teus olhos, um caminho encontrei,
No teu amor, nasceu a minha paixão.

Cada dia contigo é um poema novo,
Escrito em versos de paz e calor.
És o sonho que tanto renovo,
Minha razão, meu eterno amor.

No frio da vida, és meu cobertor,
Que aqueces a minha alma com ternura.
Se és primavera, sou teu fervor,
Vivemos em nós a mais bela aventura.

Quero ser o porto onde sempre ancoras,
Nos ventos que sopram, firmar-te ao chão.
Amar-te nas horas calmas e agora,
Ser a tua metade, a tua consolação.

Assim termino, com o coração aberto,
Prometendo amar-te até ao fim.
Nos caminhos da vida, sempre por perto,
Meu eterno amor, és tudo para mim.

Participei e selecionada para constar na Coletânea de Cartas de Amor “Três Quartos de Um Amor".

11 de fevereiro de 2025

Cinzas da Libertação


Luz das Letras: Escreva uma frase curta (máximo 20 palavras) relacionada com o elemento (fogo). Depois, crie um texto onde contenha a frase que criou (até 300 palavras).
 
As chamas dançavam ao vento, consumindo a madeira crepitante, enquanto a luz dourada refletia nos olhos fascinados da jovem observadora. Clara permaneceu imóvel, sentindo o calor envolver-lhe o rosto, o cheiro intenso da madeira queimada a invadir-lhe os pulmões. Não recuou. Aquele fogo não era apenas destruição, era uma libertação.

Horas antes, encontrara-se sozinha na velha casa, onde as paredes sufocavam ecos de gritos e lágrimas do passado. O cheiro a mofo misturava-se com lembranças cortantes. Ali crescera, entre silêncios esmagadores e palavras afiadas como lâminas. Cada canto daquele lugar exalava dor, as sombras pareciam sussurrar segredos que ela desejava esquecer. Mas agora, segurava a caixa de fósforos, os dedos cerrados, o coração acelerado. Era chegada a hora.

O primeiro fósforo acendeu-se num estalido breve, uma centelha frágil entre os seus dedos trémulos. Hesitou. Um nó apertava-lhe o peito, mas era um aperto diferente, não de medo, mas de despedida. Pensou nos anos roubados, no sofrimento engolido em silêncio e então, soltou um suspiro profundo. Deixou cair a pequena chama sobre as cortinas envelhecidas. O lume rastejou por elas, crescendo, devorando, transformando tudo num inferno dourado.

O fogo rugiu, subindo faminto pelas paredes como serpentes de luz. Clara recuou para o jardim, onde o frio da noite beijava-lhe a pele em contraste com o calor abrasador que consumia o passado. As chamas iluminavam o céu negro, dançando como espíritos vingativos. A sua respiração era leve, os ombros já não carregavam o peso de outros tempos.

Quando as sirenes soaram ao longe, Clara não se moveu. O medo não existia e o arrependimento nunca chegaria. O passado ardia diante dela, reduzindo a cinzas e na sua alma, só restava liberdade. Fogo destruía, mas também purificava.

E naquela noite, Clara renasceu das suas próprias chamas.

5 de fevereiro de 2025

Luz das Letras com as palavras vela, flores e livro.

A vela tremia ao sabor de uma brisa invisível quando Helena abriu o livro. O cheiro das flores espalhadas pelo chão misturava-se com o aroma antigo do papel, criando um perfume que a transportava para tempos esquecidos. O silêncio era sufocante, pesado como um luto antigo, apenas interrompido pelo som do seu próprio coração a martelar contra o peito. Ela viera em busca de respostas. Durante anos, ouvira sussurros sobre um livro que concedia desejos a quem soubesse lê-lo. Agora, com as mãos trémulas, percorria as páginas cobertas de símbolos que pareciam mover-se sozinhos. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha quando as palavras começaram a brilhar, uma luz fria e faminta. “Diz o teu desejo”, murmurou uma voz etérea, gélida como o vento de um túmulo aberto. Helena hesitou. Poderia pedir tantas coisas, riqueza, amor, poder, mas havia apenas um desejo gravado na sua alma, uma ferida aberta que nunca cicatrizara. "Quero ver a minha mãe outra vez." O vento soprou com uma força desumana, apagando a vela num sussurro de sombras. As flores murcharam num instante, estalando como vidro partido. A sala foi engolida pela escuridão e o livro aqueceu até queimar as suas mãos. Soltou um grito, mas a dor desvaneceu-se quando uma luz fantasmagórica se ergueu diante dela. E então, ali estava. A figura delicada da sua mãe, os olhos marejados de saudade, um sorriso que escondia a dor de um tempo roubado. As lágrimas de Helena caíram descontroladas. "Mãe…", sussurrou. Tentou tocar-lhe, mas sentiu apenas o vazio frio do ar. A mãe esboçou um último olhar, os seus contornos já a desvanecerem-se como fumo levado pelo vento. "O tempo é breve", sussurrou ela e a sua voz ecoou como um lamento perdido no espaço entre os vivos e os mortos. Helena gritou, tentou agarrá-la, mas tudo desapareceu num instante. O livro caiu no chão, inerte, as páginas agora em branco, como se nunca tivessem contido magia alguma. A vela reacendeu-se sozinha, lançando sombras dançantes contra a parede. Restavam apenas as flores caídas, frágeis e quebradas, como testemunhas silenciosas de um desejo concedido… e perdido para sempre.

2 de fevereiro de 2025

Burlas e enganos


O relógio marcava as três da manhã quando Pedro verificou as mensagens no telemóvel. "Mais um cliente ansioso para investir", pensou, sorrindo, enquanto os dedos deslizaram pelo ecrã, frios e calculistas. Nos últimos anos, tinha refinado a sua arte, fingia ser agente imobiliário, vendendo sonhos que nunca se tornariam realidade. Uma mentira bem contada valia milhares de euros. E ele contava-as sem pestanejar.
Desta vez, o alvo era Henriques, um jovem casal desesperado por encontrar casa própria. Pedro usou as mesmas estratégias de sempre, fotografias de casas luxuosas, contratos falsificados, um site profissional que sumiria assim que recebesse o pagamento. "É a oportunidade da vossa vida. Se não aproveitarem agora, amanhã já não há hipótese", insistiu, injetando urgência na sua voz. Henrique hesitou, mas o medo de perder a suposta oportunidade venceu. Em poucos minutos, os 15.000 euros estavam na conta de Pedro.
Na manhã seguinte, apagou todos os vestígios da sua existência digital e partiu para outra cidade, levando a sua família consigo. Era assim que operava, saltava de região em região, um fantasma no mundo dos negócios. Mas desta vez, algo estava errado. Desde que saíra da cidade, sentia um peso no peito, um arrepio constante na espinha. De noite, ouvia as batidas na porta do quarto do hotel, mas nunca via ninguém. Começou a ter pesadelos com rostos distorcidos, olhares vazios e mãos que tentavam agarrá-lo das sombras.
Certa madrugada, ao abrir o e-mail, encontrou uma mensagem sem remetente: "Sabemos quem és. Estamos à tua espera." O coração acelerou, os dedos tremiam sobre o ecrã. Saiu apressado, mas na receção do hotel, a recepcionista entregou-lhe um envelope. Dentro, havia uma fotografia sua, capturada no momento exacto em que enganava o casal Henriques. No verso, uma única frase escrita a vermelho: "A tua dívida será paga em sangue."
Pedro tentou fugir, mas em cada cidade para onde se escondia, os sinais tornavam-se mais evidentes. Reflexos distorcidos nos espelhos, sombras que se moviam sem explicação, vozes sussurradas ao pé do ouvido.
 O caçador tornara-se presa.
Na última noite, antes de desaparecer por completo, Pedro trancou-se no quarto e escreveu uma única mensagem para Miguel, o primo que lhe emprestara dinheiro para iniciar os golpes, sem ele saber: "Perdoa-me. Não queria ser assim. Mas agora… agora é tarde demais."
Depois disso, ninguém nunca mais o viu.

31 de janeiro de 2025

27 de janeiro de 2025

Uma Aventura no bar


Miniconto de 300 palavras, tipo comédia ou brincadeira, com as seguintes palavras: Cerveja, orelha, revistas, selva, cachos

João tinha a certeza de que aquela sexta-feira seria uma noite normal no seu bar favorito. Sentado ao balcão com a sua cerveja preferida, folheava muito distraído uma pilha de revistas antigas que decoravam o local, tentando decidir entre “Os Mistérios do Mundo” ou “As receitas à portuguesa”. Nada parecia promissor, mas ele insistiu.

Enquanto isso, ao lado dele, Ricardo, seu amigo de infância, falava sem parar sobre a sua última viagem à selva amazónica. "Tu não tens a noção, João! Aranhas maiores que a minha mão e uns barulhos de macacos que pareciam gritos de fantasmas!" João, habituado às histórias exageradas do amigo, apenas levantou uma sobrancelha enquanto tomava mais um gole da sua bebida.

Foi então que Inês, a ruiva de cachos desarrumados e de sorriso sempre malandro, se sentou ao lado deles. "Selva? O Ricardo novamente a exagerar?" perguntou, roubando um gole da cerveja do João sem pedir licença. Ele suspirou teatralmente.

“Exagerar? Isto é ciência!” respondeu Ricardo. Mas antes que pudesse continuar, Inês inclinou-se e cochichou: “Ricardo, tens uma aranha na orelha.” Ele saltou do banco, a gritar e a agitar os braços como um maluco, enquanto todos no pub riam às gargalhadas.

No meio da confusão, João terminou a cerveja. "Obrigado, Inês. Precisava disto." Ela sorriu. "Cerveja e comédia. A receita perfeita."

21 de janeiro de 2025

O Jardim dos Sete Amores

 

No coração de uma vila esquecida pelo tempo, havia um jardim mágico. Diziam que quem atravessasse o portão enferrujado encontraria flores que simbolizavam as diferentes formas de amar, cada uma com um perfume único, capaz de transformar até o coração mais inquieto. Foi com esta promessa que Lara, uma jovem à procura de respostas para as turbulências do seu coração, decidiu aventurar-se naquele lugar enigmático.

Ao empurrar o pesado portão, foi recebida por um aroma suave e uma brisa que parecia carregada de murmúrios antigos. O caminho de pedras irregulares conduzia a uma flor de pétalas azuis tão delicadas que pareciam feitas de veludo. Uma voz sussurrante ergueu-se do nada:
— Eu sou o amor-próprio. Não sou egoísmo, mas o respeito que deves a ti mesma. Sou a força para dizer “não” e a sabedoria de saber que mereces mais.

Lara ajoelhou-se, tocando a flor. O perfume doce preencheu os seus pulmões, trazendo-lhe memórias de momentos em que ignorou a sua intuição para agradar aos outros. Pela primeira vez em muito tempo, respirou fundo e sentiu um peso desaparecer.

Mais adiante, um denso arbusto de rosas-vermelhas ergueu-se imponente, o seu aroma intenso e quente a envolver. Uma nova voz, apaixonada e quase feroz, manifestou-se:
— Eu sou o amor romântico. Sou o fogo que aquece e ilumina, mas também posso queimar.

Lara hesitou antes de tocar numa pétala aveludada, recordando momentos em que o seu coração parecia explodir de alegria, mas também as noites em que chorou até adormecer.
— Por que feres tanto? — murmurou.
— Porque sou humana — respondeu à flor. — Nem sempre sou justa, mas sou sempre verdadeira.

Seguindo o caminho, Lara encontrou um campo de malmequeres-amarelos que dançavam ao sabor do vento.
— Nós somos o amor entre amigos, o laço invisível que une almas sem cobranças.

Ajoelhando-se entre as flores, Lara sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Lembrou-se de Kica, a amiga de infância com quem nunca perdera o contacto, e de todas as risadas e partilhas que viveram.
— Somos o abraço que consola, a gargalhada que cura, a saudade que aquece. Cultiva-nos e nunca estarás sozinha.

Mais adiante, sob a sombra de uma árvore frondosa, cresciam flores brancas que pareciam brilhar como pequenas estrelas.
— Eu sou o amor incondicional — disse a árvore com uma voz profunda e serena. — Sou o amor que os pais sentem pelos filhos, o que te faz continuar a amar alguém mesmo quando tudo se dificulta.

Lara pousou a mão na casca rugosa da árvore e sentiu o calor de todas as vezes que encontrou refúgio nos braços da sua mãe. Um sorriso tímido surgiu no seu rosto, misturado com uma lágrima de gratidão.

Ao virar uma esquina, uma trepadeira lilás enroscava-se graciosamente numa cerca enferrujada.
— Eu sou o amor altruísta, aquele que dá sem esperar retorno. Sou o amor que sacia a fome do faminto, consola o triste e luta por um mundo melhor.

Lara recordou os momentos em que ajudou desconhecidos, pequenos gestos que iluminaram dias cinzentos. A flor parecia exalar uma energia que aquecia a alma, uma lembrança de que o verdadeiro amor não conhece fronteiras.

No canto mais sombrio do jardim, uma flor negra e solitária chamou a sua atenção. Era de uma beleza misteriosa, quase assustadora.
— Eu sou o amor perdido, o reflexo das despedidas e das saudades. Não sou mau, sou o contraste necessário para valorizares os outros amores.

Ao tocar a flor, Lara sentiu uma pontada de tristeza, mas também de aceitação. Lembrou-se de partidas, de despedidas dolorosas, mas percebeu que o amor perdido nunca é esquecido, transforma-se em memórias que moldam quem somos.

Por fim, chegou ao centro do jardim, onde uma flor dourada irradiava luz suave, como se guardasse o próprio sol no coração das suas pétalas.
— Eu sou o amor universal — disse a flor, com uma voz que parecia ecoar em todo o jardim. — Sou a essência da vida, o elo que conecta tudo o que existe. Sem mim, nada floresce.

Lara tocou a flor dourada e sentiu o seu coração expandir, como se todo o universo fosse-lhe revelado. Era um amor maior, que transcendia todas as formas que encontrara até ali, unindo-as num ciclo eterno de dar e receber.

Quando deixou o jardim, Lara não era mais a mesma. Cada flor que encontrara representava um pedaço da sua alma, um reflexo das complexidades do amor. Compreendeu que amar não é uma experiência única, mas um mosaico infinito, onde cada peça tem o seu lugar.

Ao regressar à sua vida, Lara sentiu-se renovada. O mundo parecia maior e mais luminoso. Estava pronta para amar — e ser amada — em todas as formas possíveis, sabendo que cada amor, na sua diversidade, fazia parte do mesmo jardim que florescia no seu coração.

20 de janeiro de 2025

Verdades

Beba água onde o cavalo bebe. 
Um cavalo nunca beberá água ruim.
Estenda sua cama onde o gato dorme tranquilo.
Coma a fruta que foi tocada por uma minhoca.
Sem medo colhe os cogumelos onde os insetos se pousam.
Plante uma árvore onde a toupeira escava.
Construa uma casa onde as cobras tomam sol.
Cave um poço onde os pássaros se escondem do calor.
Vá dormir e levante-se ao mesmo tempo que as aves, você colherá os grãos de ouro da vida.
Coma mais verde, você terá pernas fortes e um coração resistente, como a alma da floresta.
Olhe para o céu mais vezes e fale menos, para que o silêncio possa entrar no seu coração, seu espírito fique calmo e sua vida se encha de paz.

19 de janeiro de 2025

Fama


Lúcia sempre sonhara com a fama. Desde criança, encantava-se com os aplausos e os holofotes. Aos vinte e cinco anos, o sonho tornou-se real, uma estrela de cinema adorada por milhões. Mas a fama trouxe mais do que imaginara.

Certa noite, ao regressar do set de filmagens, encontrou uma carta na sua mansão, selada com cera preta. Não havia remetente, apenas uma mensagem perturbadora: "Tudo o que brilha tem uma sombra. Estás preparada para a tua?"

Lúcia tentou ignorar o aviso. Mas algo mudou. Sempre que passava pelo enorme espelho da sala, notava uma figura que não correspondia aos seus movimentos. Ao posar para as fotografias, um vulto indistinto aparecia ao fundo. Nos dias seguintes, os sonhos tornaram-se pesadelos, um murmúrio constante ecoava no escuro, como uma plateia invisível aplaudindo freneticamente.

Com o tempo, Lúcia começou a sentir-se observada, mesmo quando estava sozinha. O vulto no espelho ganhou contornos, um rosto pálido, com olhos vazios e um sorriso largo, que parecia sussurrar algo inaudível. Lúcia gritava, mas ninguém ouvia.

Uma noite, enquanto descia para a cozinha, ouviu passos atrás de si. Ao virar-se, viu a sombra, agora completamente sólida. Era ela mesma, mas mais alta, mais esguia, com uma expressão distorcida de prazer.
— Quem és tu? — perguntou Lúcia, tremendo.
— Eu sou aquilo que criaste — respondeu à sombra, com uma voz seca. — A fome por aplausos. A máscara que usaste. Eu sou o preço da tua fama.

Lúcia tentou fugir, mas a sombra perseguiu-a. Cada canto da casa estava ocupado por imagens suas: cartazes, prémios, capas de revistas. A sombra crescia com cada memória de glória.

Quando a manhã chegou, Lúcia desaparecera. No espelho, uma única frase escrita a sangue: "A fama tem um custo. Eu sou o teu."

As luzes apagaram-se, e o mundo esqueceu o nome de Lúcia. Afinal, uma nova estrela surgia, pronta para pagar o mesmo preço.