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Fala

Na aldeia engolida pela névoa, ninguém falava depois do pôr do sol. Dizia-se que as palavras, libertas no ar frio, ganhavam corpo e voltavam famintas a procurar quem as soltou.

Helena não acreditava. O pai ensinara-lhe a chamar o vento com o nome das coisas perdidas, a sombra de um cão, o riso da mãe, o som das campainhas ao longe. Às vezes parecia ouvir resposta. Nessa noite, cansada do medo dos outros, subiu à colina e gritou o nome dele.

O chamamento regressou, denso, como se tivesse atravessado a terra húmida.
Helena.

Não era eco. Era retorno.

O ar tremeu. Da bruma ergueu-se algo que lembrava uma boca feita de sombra e vapor. O sussurro enchia-lhe o peito, puxava-lhe o fôlego para fora.
Deixa-me entrar.

As sílabas tocaram-lhe a pele, quentes, viscosas. Escorriam-lhe pelo pescoço, entravam-lhe nos ouvidos, serpentinas de som à procura de abrigo. Tentou falar, mas o ar já não lhe pertencia.

Na manhã seguinte, encontraram-na junto ao poço, imóvel. Os olhos, fixos na água, reflectiam um rosto que parecia chamar ainda. Da sua boca entreaberta vinha um leve murmúrio, como vento preso em pedra.

Desde então, ao cair da noite, um novo som percorre a aldeia — suave, quase humano. As pessoas fecham portas, tapam os ouvidos, rezam sem mover os lábios.

Porque aprenderam que a fala não morre. Apenas espera. Sempre.

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