Há coisas que não escolhemos. Há coisas que são assim. São assim porque são. Podemos escolher o nome que damos às flores e às estrelas, mas o perfume de umas e o brilho de outras seriam os mesmos fora dos nomes que lhes damos, porque a natureza das coisas é serem o que são sem serem outra coisa. O nome que damos às coisas é uma escolha que elas não fizeram e que só lhes serve na medida em que dele não precisam. O nome que damos ao rio não o faria correr nem mais depressa nem mais devagar do que corre e se lhe chamássemos chão ele nunca se deixaria caminhar.
Ninguém sabia de onde vinha o velho Mestre. Uns diziam que passara a vida entre bibliotecas esquecidas; outros juravam tê-lo visto atravessar desertos, mosteiros e cidades onde as palavras pareciam mais antigas do que as próprias pedras. Mas todos concordavam numa coisa: quem aceitasse um dos seus desafios nunca mais voltava a olhar para a língua portuguesa da mesma maneira. Numa tarde de verão, pousou sobre a mesa um pequeno cofre de madeira escura. Não tinha fechadura, dobradiças visíveis nem qualquer sinal de chave. Apenas uma inscrição gravada na tampa: «Abre-me com sete partes do corpo humano.» Pela janela entreaberta entravam os sons da praça. Ao longe, uma melodia elevava-se da velha igreja. Os acordes eram tão profundos que pareciam fazer respirar as paredes de pedra e espalhavam-se pelas ruas como um fio invisível, fazendo vibrar o silêncio. — Parece fácil... — comentou um rapaz. O Mestre sorriu. — Os enigmas mais difíceis são aqueles que se apresentam com a si...

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